Futuro Deserto – a distopia de Lucia e Nicolás Puenzo

A série distópica Futuro Deserto sobre Inteligência Artificial criada por Lucia Puenzo e seu irmão Nicolás aborda uma temática muito presente nas últimas obras de Ficção Científica audiovisuais – os andróides poderiam representar a única possibilidade efetiva de uma nova humanidade. Os humanos em cena são abomináveis, das crianças e adolescentes das escolas, passando pelo contraditório psicólogo Alex (José Maria Yazpik) ao CEO Frank (Andres Parra) da empresa do Vale do Silício FUZHIPINi, não se salva ninguém. Não são caricatos, infelizmente são terrivelmente familiares. Abuso sexual de menores, misoginia, exploração de mão-de-obra escrava, infanticídio, tudo lhes parece natural. Partindo desta perspectiva, não é de se estranhar que os robôs da história nos pareçam surpreendentemente menos assustadores do que os humanos. O futuro é um vazio sem fim, aterrador, inóspito e solitário.
A autora argentina Lucia Puenzo, cineasta, escritora, trabalha uma história original que não foi inicialmente concebida como novela, ao contrário de seus primeiros trabalhos. A questão do fantástico e da ficcção científica tampouco lhe é estranha, e estava bem evidenciada desde seu último filme Os impactantes. As questões que ela coloca em cena estão presentes em sua obra desde O médico alemão (2013) que abordava a vida de Mengele na Patagônia, e XXY (2007) protagonizada por uma adolescente intersexual. Esta é sua primeira experiência em uma ficção seriada.
Os Anbi (agentes não biológicos inteligentes), programados para serem um apoio ao ser humano realizando tarefas domésticas – as mulheres naturalmente -, ou até mesmo para outras finalidades de caráter afetivo e sexual, o que se coloca de forma dissimulada, entretanto, podem se reprogramar, e aos poucos, o jogo vai virando contra o cientista colonizador representado por Alex, o psicólogo organizacional, que cria dois filhos ao lado da robô Maria (Astrid Berges-Frisbey), criada por sua esposa Sara, morta de câncer. A trama toda se desenvolve em Chiapas, o estado indígena do México em que se desenvolveu a revolução zapatista liderada pela enigmática figura do Comandante Marcos. A parte mais fraca da série, contudo, se dá precisamente ai, pois uma das robôs é indigena e começa a assumir posturas revolucionárias, mas não fica claro por qualmotivo isso acontece e o que significam as reuniões das associações e suas reivindicações. Chiapas é um estado rico em minérios que foi incorporado ao México em 1824, e pertencia à Nicarágua. Majoritariamente indígena, segue deslocado dentro da grande nação mexicana, sempre como cenário de conflitos étnicos.Sua capital éTuxtla Gutiérrez, mas a cidade mais famosa é San Cristobal, com suas ramblas e tradições. O representante do núcleo indígena da série é Martin (Horacio Garcia Rojas), assistente de Alex. O ator, de ascendência huasteca, já integrou o elenco de Diablero (2018-2020), uma série que promove um resgate mais bem-sucedido dessa ancestralidade. Sua presença e atuação atribuem verossimilhança ao personagem e à questão étnica e ambiental, mas essa possibilidade não é aprofundada nesta primeira temporada. Martin é encarregado de supervisionar a robó Rita (Yoshira Escárrega), que ele decide colocar na casa de sua mãe, para protegê-la e lhe fazer companhia.
A questão da estrutura familiar patriarcal decadente versus benefícios da tecnologia virtual é bem trabalhada e prende a atenção. A empresa de IA trabalha com lutos, ausências, e embora muitos clientes não consigam lidar com essas questões, gerando desconforto, é no desenvolvimento dessas situações que reside o grande mérito da narrativa. A robô Maria se transforma na mãe de duas crianças, e ao substituir a cientista Rosa (Ilse Salas), ela de fato desenvolve sentimentos e afetividade, ela sofre, e eles também.
A empresa lida diariamente com esse desconforto, que acaba causando prejuízos e “danos colaterais”, o que evidencia por outro lado a serlvageria das relações sociais humanas. O casal que contrata a empresa para reviver sua filha não consegue lidar igualmente com um robô que tem consciência de sua singularidade, e de sua morte trágica. As freiras do convento não aceitam uma trabalhadora que tenha fé, afinal, ela não é um ser humano.
O cientista Alex personifica essa centralidade da narrativa nos conflitos humanos e representa uma figura ambígua, ora devotado aos filhos, ora misógino e tóxico que nem percebe a forma utilitária com que trata a sua Anbi, e, ao apaixonar-se por uma professora do local, imediatamente se dá conta de que Maria pode ser um estorvo.
Todos esses conflitos são acirrados quando a população local se dá conta dos riscos trazidos por essas inteligências artificiais, como por exemplo, o desaparecimento dos empregos. Para coroar, temos um CEO corrupto que sonha em criar um exército particular, como qualquer ditador. Vai ter uma segunda temporada.

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