A estética Whimsical de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes

O filme Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, produzido pela Netflix, traz a história simples e comovente da improvável amizade de Marcellus, um polvo gigante do Pacífico vivendo seus últimos momentos em um aquário (a dublagem é de Alfred Molina, impecável), com a faxineira Tova, interpretada por Sally Field, a eterna Noviça Voadora. Tova é uma uma melancólica faxineira entrando na aposentadoria e lidando com difíceis perdas afetivas do passado, e tendo de encarar a possibilidade de vender sua casa e morar num retiro para idosos. O polvo Marcellus é a personagem central do livro best-seller Criaturas Extraordinariamente Brilhantes de Shelby Van Pelt, e aqui se transforma em narrador não onisciente. Um drama comovente, denso e ao mesmo tempo carinhoso,  um tanto exótico para os valores atuais, com uma peculiar diferença sobre filmes de narrativas fantasiosas  com perspectivas animistas como as animações da Disney – sua diretora Olivia Newman transformou o filme em  uma autêntica pérola da estética whimsical.
A palavra whimsy, que teria se originado ainda no século 16 da palavra whim-wham, segundo definição do dicionário, pode ser traduzida como caprichosa, fantasiosa, mas também pode ser referir a um objeto ornamental extravagante e sem nenhuma utilidade, o popular rococó de nossas avós, talvez brega em uma atualização brasileira. Desnecessário, excessivo, mas pungente, essencial para a alma. Tova, palavra que em hebraico significa boa, bondosa, é uma faxineira que trabalha em um aquário extremamente decadente, e estabelece uma conexão profunda com o polvo Marcellus, que, repetidamente tenta escapar de seu minúsculo aquário, saudoso dos tempos em que dispunha de todo o oceano para si.
O aquário da pequena cidade Sowell Bay representa essa decadência que se atribui à velhice, e a casa de Tova é construída a partir de uma antiga cabana de madeira repleta de objetos com esse toque mágico e artesanal, vintage, caixas repletas de badulaques.
O filme soa como uma grande metáfora sobre pessoas e objetos que perderam seu valor simbólico e passaram a ser encarados como descartáveis por não terem mais função prática, mas que ainda estão ali, vivos e conectados à realidade.
A finitude que a morte traz não é necessariamente o fim de todas essas coisas, também abre espaço para novas vidas, experiências e sentimentos. O dilema de quem envelhece sem uma família ao redor é sempre o mesmo, afinal quem vai cuidar de mim? A dinâmica dos afetos vai muito além disso, e as amigas de Tova representam outras possibilidades de troca e de convívio.

O ponto de virada da trama é a chegada à cidade de um jovem forasteiro, Cameron (Lewis Pullman), que aceita o cargo de faxineiro do aquário e vai substituir Tova. Seu sonho é se tornar um astro pop, ele é compositor, mas vemos entender seus motivos ao longo da história.. A princípio, ambos se estranham, mas acaba nascendo ali uma amizade. Tova perdeu seu filho de forma trágica, e depois viu seu marido partir. Marcellus vê nesse encontro novas possibilidades para ambos e segredos a serem desvendados que poderão ajudá-los a preencher um vazio sentimental.

E o velho polvo está certo. Tova e Cameron acabam se tornando cada vez mais próximos e essa relação traz novos significados para suas vidas.  Cameron, por sua vez, se rende aos encantos do polvo, e acaba por transformar também, como Tova, o aquário de Marcellus em uma espécie de confessionário. Fábula encantadora sobre a sentido da vida, e a necessidade que todos têm de estabelecer vínculos e raízes para seguir em frente. Cameron e Tova, naturalmente, vão descobrir afinidades, e muitos laços em comum, e ainda por cima reencontrar o amor, e o rabugento e irônico Marcellus poderá, enfim, voltar às suas origens enquanto sua vida se vai. Totalmente bizarro e tão necessário. Precisamos uns dos outros para descobrir os tesouros ocultos em velhas camisetas do Gratefull Dead, usadas por Ethan (Colm Meaney),  velhas caixas e luminárias, cartas e fotos antigas.

 

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