Policial feminista queer, Deadloch 2 é pura zoeira

Chegou a tão aguardada segunda temporada de Deadloch, série de televisão australiana de comédia policial que estreou no Prime Video a 2 de junho de 2023, e passou um tanto desapercebida aqui no Brasil. Criada pela dupla Kate McCartney e Kate McLennan, a série baseou seu título em uma cidade fictícia na Tasmânia, e foi indicada ao Emmy em 2024. É protagonizada por Kate Box (Dulcie Collins), pela atriz neozelandesa Madeleine Sami (Eddie Redcliffe), Alicia Gardiner (Cath York) e Nina Oyama (Abby Matsuda). Deadloch é uma produção da Amazon MGM Studios que em sua atual temporada lembra muito nossos pastelões chanchadeiros em termos de humor.
A trama não tem vergonha de ser rocambolesca e absurda, com direito a toques de horror gore e cadáveres mutilados. Collins é sargento sênior da força policial de Deadloch, uma ex-detetive que abandonou a carreira a pedido da esposa, Cath, uma mulher rica e sexualmente compulsiva, por considerar que seria mais “seguro”. A história vai provar que não. Na primeira temporada, Colins conhece Eddie, personagem completamente destrambelhada que adota um visual não binário, e que também é policial, de Darwin, em busca do assassino de seu parceiro Bunch. A questão de identidade de gênero e de diversidade sexual é a tônica da série desde o início.
Na segunda temporada, a ação se desloca para outra cidade ficíticia, Barra Creek, onde Collins decide tirar férias ao lado de Cath. A cidade é uma atração turística, e está repleta de crocodilos – que remete a um cenário muito semelhante a Crocodilo Dundee. Como logo vamos perceber, essas férias estão comprometidas desde o início. Quando Eddie aparece em Barra Creek, Collins descobre que a amiga nasceu na cidade, e que ali vive seu pai com o qual ela tem uma relação conturbada. Uma sucessão de assassinatos sem conclusão começa a ocorrer, ao lado da caça e abate ilegal de crocodilos. Todas essas conexões eram desconhecidas para Collins, o que abala sua relação com Eddie, que ora é colocada como profissional, ora como afetiva.
Desesperada com situações imprevistas que não se esgotam, Cath acaba investindo num trabalho local temporário num bar. Enquanto Collins mergulha num caos que aos poucos vai revelando relações complexas familiares e ressentimentos, motivações por trás dos crimes, Cath se diverte flertando com todas as mulheres da cidade.
Em Barra Creek, não há muito o que fazer. Mas nesta segunda temporada, há muito mais mulheres em ação e em destaque do que na temporada anterior. Os poucos homens em cena ou são totalmente velhos e decadentes, ou são bonitões ao estilo country, rudes e um tanto limitados em suas reflexões. E, sim, alguns são assassinos e criminosos. Antes de falar em misoginia às avessas, nem tudo é o que parece em Barra Creek. Mas é divertido ver tantas mulheres de todas as idades como protagonistas – as donas do bar, as guias, as mochileiras -, pouco interessadas em manter a forma e fazer dieta ou atender a estereótipos de consumo feminino, simplesmente levando a vida. Mesmo receosos e machistas, os caipiras da cidade acabam entrando no jogo delas.
Collins é a protagonista ideal em sua performance  de policial de caráter íntegro, enquanto Eddie comete todas as transgressões possíveis para perseguir os seus objetivos, a velha técnica de justificar os meios pelos fins. Abby (Oyama) dá o verdadeiro comic relief, com sua ingenuidade e timidez, tentando colaborar com as duas veteranas e, quem sabe, subir de posição. E para ninguém ficar sozinho, surge a personagem do repórter trans Leo Lee (Jean Tong, também roteiristas da série).
A estética e as músicas das baladas no bar local lembram um pouco o clime de Priscila, a Rainha do Deserto, mas as personagens são muito mais realistas e inseridas no cenário local. Luke Hemsworth faz Jack Wade, o sinistro empresário local, e Steve Bisley é Frank McCallister, paixão secreta de Eddie. O tom de esquete muitas vezes compromete o desenvolvimento da história, mas ainda assim, mesmo com todo o overacting, é divertido e interessante.

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