Grace Passô: a estreia na direção que conquistou Gramado

Grace Passô já era conhecida como dramaturga, escritora e atriz quando, a pedido do Festival de Tiradentes, decidiu transformar seu trabalho solo de teatro, Vaga Carne (2019), em uma experiência cinematográfica. Para ela, o desafio de produzir um filme a partir da peça, desenvolvido em conjunto com o produtor e diretor Ricardo Alves Jr, parceiro de longa data no grupo de teatro Espanca!, acabou por agregar nova função artística a sua carreira, a de diretora. O filme Nosso segredo, que levou os Kikitos de melhor filme, melhor fotografia e direção de arte em Gramado este ano, foi também baseado em uma peça do grupo, Amores Surdos. A transposição da peça para as telonas, entretanto, trouxe novos olhares e possibilidades em um processo de transcriação do espaço cênico. A casa em que se passa a história da família negra que passa por um luto, e vai se ensimesmando, se transformando em refúgio contra o mundo colonialista, é uma casa onde Grace viveu, e as memórias da luz, do espaço, foram essenciais para a construção do cenário e da fotografia em cena, função desempenhada por Wilssa Esser, que esteve em trabalhos anteriores com a atriz, como o curta República, filmado na pandemia.
Nosso segredo narra a história de uma família negra de classe média em Belo Horizonte que perdeu o pai, e não consegue conversar sobre o assunto, nem sobre a forma como ele morreu. O pai era branco, e a família tem uma amiga também branca. Todos os demais personagens são negros, a matriarca da família, Sueli (Ju Colombo, em atuação delicada e contida) e a sensação de claustrofobia que se instaura no filme do meio para o fim dá essa dimensão da dor da perda, mas também de um universo racialmente delimitado que pode ser cruel e assustador, exigindo medidas extremas de segurança.

O garoto Tutu (Efraim Santos)  está doente, de licença médica em casa, e em determinado momento, lhe perguntam se por acaso aconteceu algo na escola, sugerindo perseguição ou bullying. Ele se esquiva de responder. Tutu, de fato, tem um segredo, que, a princípio, é tratado como fantasia infantil para lidar com a ausência paterna. Na medida em que o pavor se instala, vamos descobrir que a amiga imaginária do menino não é imaginária, é bem real, e enorme. O surreal vai dando vazão à fantasia. Grace confessa que a sua primeira experiência foi banhada por imagens de Jafar Panahi. O horror, o fantástico lhe parecem convenientes para expressar alguns absurdos da vida real, além de ser uma linguagem visualmente plástica. O filme demora um pouco a entregar o que queria desde o princípio mas os atores incorporam  a história e vivenciam os personagens dentro do processo que já foi descrito como corpo tela pela educadora e pesquisadora Leda Maria Martins. A abertura é embalada pela canção Caravana de Geraldo Azevedo, que acompanha o taxista Gilson (Robert Frank) pelas ruas de BH. Nem sempre a câmera consegue captar a generosidade destes corpos que ilustram as oscilações entre o corpo tela e o corpo híbrido. vivificados por Tassia Reis, que faz uma amiga de Guto (Flip) que o faz repensar a relação amorosa com sua família e a importância dos vinculos afetivos mas tamém de não evitar a ausência..

 

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