Spider-man: quando o noir é pretexto para evitar o passado

Um dos anúncios de cancelamento de série mais recentes atingiu Spider-Noir, o Homem Aranha da década de 1930 protagonizado por Nicholas Cage. Os motivos são muitos, talvez um super herói cinquentão não seja tão atrativo quanto um adolescente tímido para as audiências. Nos comics, em que o personagem tem relação com Peter Parker, diferentemente da série, o bonequinho noir é um sucesso de vendas. A produção da Prime Video, entretanto, que agradou a muitos fãs, também gerou polêmicas. Ben Riley (Cage),um envelhecido e azarado detetive particular na Nova lorque, é um ex-combatente estadunidense da Segunda Guerra Mundial que se tornou acidentalmente parte de um experimento nazista. O projeto visa criar homens dotados de poderes extraordinários que serão utilizados para fins bastante questionáveis, como sempre.
A receita segue a cartilha do noir clássico: filmado em branco e preto, mas também em cores, alterna luz e sombra, o chiaroescuro, quem escolhe a edicação a ser vista é a audiência. O telespectador decide. A música Back to Black, de Amy Winehouse, abre o trhiller e créditos, e leva a pensar que estamos diante de uma narrativa atual, com sabor de retrô. Rilley tem ainda uma funcionária que o ajuda em suas investigações, gordinha, sagaz e casada, Janet Ruiz (a atriz Karen Rodriguez). Temos ainda o amigo repórter do herói, Robert Robertson (Larmone Morris). Ambos tentam tirar Rilley da crise de meia-dade na qual se instalou. A mulher fatal Cat Hardy, é asiática, interpretada por Li Jun Lee, a mesma chinesa de Pecadores, que aliás desempenha performance admirável, cantando.e dançando de forma satisfatória e bastante convincente. Sua interpretação de Dream A Little Dream Of Me  é tocante. Fotografia impecável, cenários idem. Então, o que está errado?
Um dos motivos do surgimento dos private eyes, os detetives solitários dessas obras do cinema do período, é a extrema corrupção que vigia na época no LAPD, o departamento de Polícia de Los Angeles, mas também em outras corporações. A busca da verdade não poderia ser mais deturpada em outro contexto, e a série retrata bem essa relação, com encontros furtivos entre o chefão do crime, vivido pelo irlandês Brendan Gleeson, O Silvermanem, o amante de Li, e o chefe de polícia. O noir é sempre um olhar sobre o passado, dizia James Naremore, o ensaísta e teórico estadunidense que mais se aprofundou nos estudos sobre o noir que ele entendia que poderia estar não somente nas narrativas criminais, mas também na ficção científica, no drama, no horror, pois possui características transgenéricas.Trata-se na verdade de uma idealização nostálgica do passado, e também de uma percepção crítica do presente, e da realidade, um desencanto com o real. A reconfiguração contemporânea deste estilo pode soar como farsa, se for pensada apenas como estética.
O personagem de Cage não tem conflitos, é quase patético, auto-indulgente, ele reage às situações. Dentro disso, sua secretária demonstra muito mais paixão em cena, fissuras a serem exploradas. O noir aqui soa artificial, como um recurso de estilo para salvar uma trama que não tem alma nem ideologia, um personagem que não tem identidade mas que também não se importa. Ele só quer sobreviver.
As personagens em cena, o cenário e as situações poderiam facilmente promover o deslocamento da história para um cenário distópico, pois ficção científica e investigação criminal, suspense, se entrelaçam o tempo todo. Mas a trama fraca não tem essa ousadia, deixa tudo na superfície. Totalmente o oposto de Watchmen, por exemplo, que não tem medo de rebelar-se, o que fica mais evidente na minissérie Watchmen, estrelada pela polivalente atriz e diretora Regina King no papel da justiceira Angela Abar, a Sister Night. Outro exemplo bastante contemporâneo do noir é a série Slow Horses, criada por Mick Herron, que por sinal está com nova temporada anunciada.

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