“Chicas Tristes”: adolescência e o Brasil como destino idílico

Chicas Tristes, o longa-metragem da diretora mexicana Fernanda Tovar, traz a história de duas melhores amigas, Paula e La Maestra, de 16 anos, que treinam como atletas para participar treinando para o Campeonato Pan-Americano Júnior que vai acontecer no Brasil. As duas amigas inseparáveis sonham, fazem planos, até que La Maestra, que é virgem, começa a se sentir envolvida por um colega. A amiga faz o papel de Cupido, e procura aproximar os dois. Um dia, numa festa, o encontro acontece. No entanto, por mais que Paula questione a amiga sobre como foi a experiência, esta se fecha. La Maestra vai perdendo a vontade até mesmo de treinar. Um dia acaba confessando a Paula que o encontro foi uma decepção sem precedentes, pois ela sonhava com sua primeira vez de uma forma diferente, mais romântica, enquanto o parceiro pouco se importou com a sua reação e exigiu seus “direitos”, magoando-a de forma estúpida. O estupro dentro de uma relação que deveria ser consensual não é um caso isolado, infelizmente é bastante comum, pois trata-se sem dúvida de um problema estrutural, muitas mulheres não conseguem a La Maestra no entanto não quer assumir que foi abusada, pois não quer ficar marcada socialmente pelo ocorrido. Mas o rapaz não se contenta, e começa a assediá-la. Paula se sente culpada porque acredita que como uma facilitadora do encontro entre os dois, contribuiu para magoar sua amiga.
Esta é trama principal do filme, que coloca em evidência um tema ainda polêmico e impactante, mas surpreende pela delicadeza com que aborda essas questões – não há cenas de violência, ou de nudez gratuita, apesar das duas passarem o maior tempo em trajes de banho dentro da água, o que rende tomadas lindissimas. O colectivo Colmena, produtora integrada por Fernanda, é voltado para temáticas de gênero e agrega diversas propostas de realizadores independentes na cidade do México.
A naturalidade em cena é outro fator que dá ao filme um ar de autenticidade poucas vezes visto nesse tipo de filme, pois são elas que ditam o ritmo da narrativa. Não é, definitivamente, um filme sobre o estupro ou sobre a adolescência feminina a partir do olhar de um adulto. As cenas mais longas se dão entre as duas amigas. Fernanda Tovar, a diretora, trabalhou com as atrizes arduamente antes de rodar, com ensaios criando situações que provocassem essas intimidade entre as duas, e fizesse aflorar a cumplicidade que é tão usual nessa fase da vida entre duas meninas. Representar de forma cinematográfica essas relações é uma prioridade aqui,mais do que os fatos.
O que pode surpreender ainda o espectador brasileiro é justamente o espaço ocupado pelo Brasil não como cenário de cartão postal, mas como imaginário de beleza, de realização dos desejos, de uma vida adulta plena, e de felicidade. Essas referências permeiam toda a trama, enquanto as meninas treinam, mas se dá ainda enquanto as duas jogam o Tarô dos Gatos, pelas águas que evocam praias e natureza, e pelas canções da trilha, uma de Alceu Valença (Anunciação), e outra de Arlindo Cruz, Meu lugar, que fecha o filme.
O filme foi o Vencedor do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano. Amanhã, segunda-feira, é a última oportunidade para ver o filme dentro da Mostra de São Paulo.

26/10 19:40 CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 5

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