No filme de terror A professora de francês, dirigido por Ricardo Alves Jr, Grace Passô é a professora Graça, uma professora negra, que mora com a namorada francesa, Clara (Jehnny Beth), que é DJ, em Belo Horizonte. O pai de Graça, Raimundo, mora na periferia e já com a idade avançada, começa a passar mal, que fica sabendo por vizinhas que ele não está bem, o que acaba por solicitar mais atenção da filha. Os vizinhos, vividos por Barbara Colen, Elisa Lucinda e Barbara Colen, cobram dela também uma presença mais efetiva ao lado do pai. O convite de dar aulas de francês para os jovens da comunidade, inicialmente aceito por Graça, acaba por se transformar num instrumento de opressão e invasão à sua privacidade, ao direito de viver sua sexualidade livremente.
O problema é que seus vizinhos, que ela conhece desde menina, passaram a fazer parte de uma comunidade religiosa que é liderada pelo jovem Tomaz (Pedro Goifman), que ela viu crescer, e cujo fanatismo ameaça a integridade de Graça e de sua namorada.
O grande acerto do filme é justamente mesclar esse acolhimento inicial dos vizinhos e amigos, afetuoso, solidário – todos entram a todo momento em sua casa querendo ajudar – e perceber que ele se transformou em ódio, em ressentimento. Neste clima tenso em que a intolerância de gênero é a tônica, percebemos Graça totalmente enredada, vulnerável, aparentemente sem se dar conta de que os lugares que lhe eram familiares, se tornaram territórios de disputas, de violência e de conflitos de visão de mundo. Graça aparentemente, é a vítima nesse jogo e cai na armadilha. A narrativa ganha características de thriller de suspense, mas o final é catártico e traz uma perspectiva de revolta. Graça se rebela e assume a sua própria jornada interior, rumo à liberdade. O fanatismo religioso daquela comunidade, no entanto, de pessoas simples, nos faz traçar um paralelo inevitável com o Brasil e suas diásporas. Como foi que essa gente trabalhadora, incansável e amorosa se voltou para a apologia da fé como instrumento de poder sobre o outro? Sem nenhuma perspectiva de transcendência.
O terror aqui é um ingrediente fascinante que se descola dos estereótipos do gênero, pois nos aproxima ainda mais da realidade brasileira. O infamiliar, frequentemente associado ao gênero no cinema e na literatura, vem de um ensaio de Freud, e nomeia esse conceito psicológico e estético em que algo doméstico sai do plano do familiar para o que causa estranheza, o alienígena, o insólito. Freud, entretanto, alertava para esse sentimento que era despertado de forma assustadora como algo que sempre existiu, que estava oculto, reprimido pela mente, e que de repente, a partir de algum gatilho, volta a ser real. Essa a natureza da trajetória de Graça, que ao final, incorpora essa disfuncionalidade e se vinga.

