Na película Chronovisor, dirigida por Kevin Walker & Jack Auen, uma professora e pesquisadora de Nova York, Béatrice Courtem passa a se interessar pela criação de uma máquina, que teria sido inventada por um monge italiano, o “cronovisor”, que teria a capacidade de capturar imagens do passado. Uma dessas imagens seria a crucificação de Jesus Cristo, o que acaba sendo desmentido na primeira parte do filme. Essa simples sinopse, entretanto, não permitiria olhar para o filme em sua estrutura.
O filme é na verdade um found footage sofisticado, que se passa em cinco línguas – inglês, italiano, francês, alemão e português-, e que transforma a pesquisadora acadêmica em um motor de investigação sobre o passado, mas também permite prospectar futuros, sempre reavaliando a supremacia da tecnologia nas relações e nas nossas memórias de mundo, bem como sobre a efemeridade das línguas, do ser humano e suas manifestações culturais, mas também sobre a forma como armazenamos conhecimento pelos séculos de vida.
Como boa parte da narrativa mostra a pesquisadora lendo documentos, livros e o clipping de matérias sobre a invenção, que teria passado a outras mãoes, isso facilita a apreensão do espectador sobre os conteúdos, mesmo porque esse é um cinema centrado na experiência, nas sensações, uma memorabília da presença da humanidade n Terra que flerta com o antropoceno.
Não por acaso, o primeiro depositário dessa insolita máquina que permite viajar no tempo passado e futuro, é um padre católico. Isso posto, toda a visão do filme repousa nos arquivos de saber da sociedade ocidental. O filme é divulgado como um noir acadêmico. A pesquisa investigativa da erudita filósofa Béatrice Courte se entrelaça com a história (supostamente) real do “cronovisor”, esse dispositivo quase mágico que teria sido construído na Itália na década de 1950. A busca obsessiva de Beatriz sobre a verdade da existência da máquina faz com que ela aos poucos vá sendo consumida pelas imagens, até ir se transformando em uma delas. Aos poucos, já não sabemos se ela existiu ou não, sua figura vai se esvanecendo quando ela finalmente chega a Portugal, e se transformando em um vídeo. A contraposição de 16 mm à VHS na tela evoca o passado, mas também o que é real e o que é imaginário. Passado ou presente reconfigurado? Nas inúmeras versões das quais dispomos sobre a história passada, a Antiguidade, de fato, não sabemos distinguir o que é relato ou interpretação. A linguagem, as tecnologias, mudam e transformam nossa visão de realidade. Chronovisor, o filme, é em preto e branco, por vezes num colorido muito escurecido, estetizando o chiaroescuro típico do noir de forma propositadamente artificial. O preto e branco, na verdade, representam nas telas o passado, os sonhos a partir de uma concepção cinematográfica.
Ficha técnica
2026 | 99’1 English, French, Italian, German I 1.33:1 | Super 16mm | 2k DCP | Stereo, 5.1
22/10 13:00 RESERVA CULTURAL – SALA 1
26/10 12:00 CULTURA ARTÍSTICA

