O filme mais recente de Aly Muritiba, Barba ensopada de sangue (2026), baseado em romance do mesmo nome do escritor gaúcho Daniel Galera, é surpreendente e ousado, e avança ainda mais na discussão das masculinidades contemporâneas, num processo que se inicia ainda em trabalhos anteriores do cineasta baiano radicado em Curitiba, como Deserto Particular. (2021).
Os resultados em termos de narrativa são inferiores ao trabalho anterior, com muitas pontas soltas no roteiro, mas ainda assim o filme é extremamente interessante, e entrega composição madura e expressiva do ator Gabriel Leone, ator que vem se notabilizando por desempenhos versáteis de personagens densos, como o vilão brasileiro da série Citadel, ou o matador de aluguel de O Agente Secreto. Desta vez, o diretor baiano se desloca para o litoral catarinense, para narrar uma história de temática subjetiva, e ao mesmo tempo fantástica, protagonizada pelo ator Gabriel Leone que interpreta um personagem de mesmo nome em busca de seu legado e de sua história, para onde se desloca atendendo a um pedido do pai, um personagem do qual sabemos muito pouco – na primeira cena ele chama o filho Gabriel para anunciar sem rodeios que pretende se matar, e pede ao filho para matar sua cadela Beta, pois não quer que ela fique sozinha. A cena corta para Gabriel, que é professor de natação, caminhando em Cananéia, litoral de SP, que serve de cenário à praia do litoral catarinense onde teria vivido seu avô, a fantástica Armação, ao lado da cadela que o pai pediu para ser sacrificada, mas que ele decidiu manter como companhia. No romance original, a praia é Garopaba. Armação, a praia imaginária do romance, serve como cenário e pano-de-fundo para discutir a sanguinária caça às baleias que caracterizou num passado recente a praia de Garopaba, atualmente conhecida como referência de turismo ecológico.
Neste trajeto, que se inicia a partir da morte do pai, ele vai ser permanentemente desafiado a enfrentar rituais patriarcais que validam sua existência como indivíduo, personificados pelos pescadores da vila da Armação, que passam a assediar o jovem para que ele vá embora o quanto antes sem descobrir a verdade sobre o seu misterioso avô Gaudério.
Gabriel também tem seus segredos, como vamos descobrir, mas é como se a sua prosopagnosia, disfunção que impede seu portador de reconhecer pessoas e a si próprio no espelho, o dotasse de uma capacidade única de ver a tudo e a todos como se fosse a primeira vez, o que produz uma inquietação em quem assiste, pois, a câmera aponta para evidências que ele não parece perceber, e o espectador se torna cúmplice sem poder interferir. Essa condição rara é a mesma do neurologista e ensaísta Oliver Sacks, que dedicou sua vida a descrever de forma ensaística personalidades com diferentes síndromes e condições raras como autismo, encefalia letárgica.
Herdeiro de uma casa abandonada à beira da praia, Gabriel passa a viver na pequena vila de praia que reúne antigos caçadores de baleia e muitas superstições, apesar de ser rechaçado pelos locais. É recebido com desconfiança por todos os moradores, exceto pela guia turística vivida pela atriz Thainá Duarte, outra forasteira como ele, que tenta, em vão, seduzir Gabriel para uma outra perspectiva de vida.
O filme, que foi efetivamente produzido em Cananéia, litoral sul de São Paulo, e não em Garopaba, como no romance, se beneficia do caráter histórico e da natureza ainda bastante preservada de sua locação, para criar uma sensação de volta ao passado, de ancestralidade. Leone, que vem conquistando espaços como ator no Brasil e no Exterior, em filmes como O Agente Secreto e Ferrari, além de séries como a franquia internacional Citadel, na qual vive um empresário brasileiro, demonstra toda a sua versatilidade e transita com fluidez por esse cenário rústico, compondo um personagem solitário em um momento de transição e deslocamento. O personagem tem uma presença cênica incontestável, e sua personalidade, bem como suas mágoas e seus conflitos amorosos, vão se revelando nos diálogos, mais do que na ação ou em novos fatos. Embora de forma por vezes demasiado lenta, o filme constrói um ambiente de suspense ininterrupto, e aponta para uma revelação final, que é bastante surpreendente, catártica, e borra de vez a linha tênue entre fantasia e realidade, sob o amparo da performance da atriz Teca Pereira. Encontrar o avô e conhecer sua história é encontrar o elo entre o amor perdido da mulher que o traiu. A redescoberta do avô funciona como uma redenção à morte do pai, e reproduz, de certa forma, o ato simbólico que funda a cultura, segundo Freud, uma vez que o pai retirou dele essa possibilidade.
O desenvolvimento da trama, similar a um rito de iniciação, discute ancestralidades masculinas e valores patriarcais, e lembra bastante outra jornada, que o diretor já havia abordado em Deserto Particular, mas aqui o resultado é mais sombrio e os conflitos mais íntimos são explorados de forma mais contundente. Não existe uma única resposta às indagações de Gabriel. Aly Muritiba assina o roteiro em parceria com Jessica Candal com quem já havia trabalhado no longa Ferrugem (2018). O filme estreou em abril de 2026 e está disponível nas plataformas Globoplay e Telecine.

