“Retorno a Buenos Aires”: a angústia e a dor como motor da memória

“Retorno a Buenos Aires” é o último longa do diretor italo-argentino Marco Bechis, agraciado com o prêmio Humanidades da Mostra Internacional de Filmes de São Paulo deste ano. Neste momento histórico em que o país voltou a sentir os ventos do fascismo soprando em nossa direção, o longa de Bechis se coloca como um relato necessário e importante.A história do personagem principal, Mariano Guerra (Adriano Giannini) se confunde historicamente com a vivência do próprio diretor, ele mesmo um exilado da ditadura argentina, mas ao mesmo tempo representa um compilado de narrativas colhidas a partir do grande processo de julgamento dos comandantes e torturadores do Exército, fato que já deu origem a outros filmes, como Argentina 1985, dirigido por Santiago Mitre e estrelado por Ricardo Darín.
Após passar 33 anos na Itália, Mariano Guerra retorna à Argentina para testemunhar no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar. Ao lado de outros sobreviventes, ele fica hospedado em uma acomodação disponibilizada pelo Ministério da Justiça, onde reencontra pessoas que compartilharam seu cativeiro e aguarda o dia de seu depoimento. Os dias passados com as outras testemunhas, os encontros e os relatos trazem novamente à tona histórias que permaneceram sem resolução por décadas. Mariano é um dos poucos sobreviventes daquela tragédia e carrega um peso que nenhuma sentença poderá aliviar. Seu retorno a Buenos Aires o obriga a confrontar o que significa ter sobrevivido.
O que diferencia este filme de narrativas anteriores é a construção de uma subjetividade política, o que por vezes torna o filme difícil de acompanhar. As memórias do ocorrido surgem na tela a partir de insights de Mariano, cenas fragmentadas, e há uma lentidão que é própria desse processo de despertar da consciência, de expurgar traumas, rememorar mortes e perdas. O desempenho do ator é excepcional neste sentido, seu desespero vai se transformando em angústia que contagia o espectador.
Porque muitos se calam diante destas barbaridades a ponto de exaltarem esses períodos sangrentos da história? Por puro desconhecimento, mas também por absoluta falta de empatia. Ao longo do filme de Bechis, percebemos que muitos torturadores seguem soltos, caminhando pela multidão com naturalidade. Esta é talvez a parte mais aterroradora do filme do diretor, que com belissimas e contundentes atuações reconstrói esse período hediondo da nossa história recente. Os problemas da vizinha Argentina são também os problemas do Brasil. O filme foi o vencedor do Prêmio Francesco Pasinetti de Melhor Filme no Festival de Veneza, e é uma coprodução Brasil-Itália.28/10 18:30 Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 5.

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