“Uma mulher desconhecida”: o ritual das mulheres raspadas

Quando a Segunda Guerra termina, as mulheres que tiveram relações com os militares nazistas são perseguidas e execradas em praça pública como Judas. A esse ritual de humilhação foi dada a denominação de “mulheres raspadas” (les femmes tondues). Elas tinham seus cabelos raspados, e depois eram despidas e pintadas com o símbolo da suástica. Esses rituais foram populares na França, mas também em outros países invadidos, como a Dinamarca. Esse é o contexto de Mulher desconhecida, longa dinamarquês dirigido por  May el-Toukhy, uma coprodução entre Dinamarca, Suécia e Letônia, que venceu o Leão de Ouro 2026 e está em cartaz na 50ª Mostra de São Paulo. A colaboração horizontal, como era chamada, muitas vezes encobria a dura realidade da guerra, com mulheres se prostituindo para viver, ou ainda mulheres que eram obrigadas a servir ao Reich, e até mesmo àquelas que se enamoravam dos soldados. Marie (Mathilde Arcel Fock) é uma delas. 
A narrativa acompanha a vida de Marie, uma empregada doméstica que trabalha como babá de um rico empresário viúvo, Christian (Carsten Bjørnlund), que fabrica luvas. Ela se torna a namorada do patrão, e o filme se inicia neste momento de transição, em que ela passa a ocupar o lugar de patroa, enquanto cuida da enteada. No entanto, ao sair para ajustar o vestido de noiva, Marie acaba se encontrando com uma pessoa do seu passado, Karl, que nutria sentimentos por ela e está vivendo momentos difíceis. Ela tenta fugir dele, mas acaba esquecendo o vestido sobre a mesa, e seus planos de se desvencilhar do passado e adquirir um novo status social se tornam ameaçados pela presença do rapaz. Ela se aproxima então da vizinha, a senhora Berg, uma mulher madura e mãe solteira, que percebe a situação de Marie e tenta ajudá-la.
No momento em que Marie prepara um jantar para os amigos de Christian, uma suástica é pintada na porta do prédio em que vivem. A situação deixa a família em estado crítico, e muitas pessoas desmarcam o jantar, com receio de serem acusadas de colaboracionistas. Christian está desesperado e busca soluções. A atriz corresponde ao papel de forma magistral, alternando a voz baixa, contida, e rompantes como os que a levam a sair uma noite para embebedar-se, arriscando tudo que havia conquistado. A imagem final de Marie, em seu casamento, ao lado do marido totalmente
A diretora não é uma novata, já havia dirigido episódios de The Crown, a série, e este é seu segundo longa, após A Rainha de Copas (2019), outro drama psicológico envolvendo uma protagonista feminina em conflitos.
A uma certa altura do filme, Marie consegue finalmente encarar o futuro marido e perguntar se por acaso o fato dele vender mercadorias para os alemães também não seria uma forma de colaborar tão complexa quanto as relações das mulheres com os soldados. Porque essa severidade com relação às mulheres? Ao que ele responde, naturalmente, que não tem comparação, que ele estava assegurando o futuro da fábrica e de seus empregados. Pela tristeza atávica de Marie, seu olhar perdido, podemos imaginar tudo o que ela passou para chegar até ali. A pintura russa “Retrato de uma mulher desconhecida”, a qual o título do filme faz alusão, é de autoria de Ivan Kranskoi, e mostra uma jovem com ar insolente e amoral. O fato é que mulheres ricas e famosas jamais passaram por isso, e sempre é citado o exemplo de Coco Chanel, que viveu um caso de amor com um oficial da inteligência alemã Hans Günther von Dincklage. A questão do ressentimento de Karl, o jovem amigo de Marie, é de fato a questão social. Ao ver sua amiga vivendo em um apartamento de luxo com criados, após ter sido colocada para fora de casa, desperta nele revolta e ressentiment

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