Sonhos de Trem (Train Dreams), filme de 2025 indicado ao Oscar pela direção de fotografia do brasileiro Aphonso Beato, é dirigido por Clint Bentley e pode ser visto na Netflix. A história segue a vida de um zé-ninguém do Oeste estadunidense, o lenhador Robert Grainier (Joel Edgerton), no início do século XX, que é também o período do extraordinário desenvolvimento capitalista daquele país mostrando o processo de gentrificação. Em seus primeiros momentos, temos a impressão de que vai ser narrada a história desse desenvolvimento, que, naturalmente, coloca a floresta abaixo, com a colaboração de muitos homens como Grainier, solitários, a maioria sem família, vivendo de trabalhos temporários sem nenhuma perspectiva de qualidade de vida. Essa horda de trabalhadores duramente explorados inclui os imigrantes chineses, que são tratados como gado.
A história de Grainier, que tem um narrador que se refere a ele em terceira pessoa, é contada como se ele assistisse impotente a esse cenário de humilhações, deportações, em que o imigrante e o trabalhador pobres são tratados sem nenhuma amenidade, mas Edgerton acrescenta a Grainier muitas camadas, que são ainda beneficiadas pela fotografia deslumbrante, de tons e sobretons, explorando a natureza, a água e o fogo, que quase se assemelha a uma punição da natureza sobre a existência humana, deixando um rastro de destruição.
O narrador (Will Patton, que não aparece) é incorporado a partir do conto, escrito por Denis Johnson, de mesmo título, que originou o filme, mas na tela acaba contribuindo para aguçar ainda mais no espectador a sensação de distanciamento, de perda de referências, da solidão diante da vida, e da vulnerabilidade do personagem interpretado por Edgerton de forma comovente. O contraponto à aspereza da vida de Grainier é seu amor por uma moça, Gladys (Felicity Jones), que ele encontra casualmente, a caminho da igreja – que ele nunca frequenta -, e com quem se casa e tem uma filha, Kate.Grainier conhece então a felicidade de ter um refúgio, um lugar no mundo para ancorar suas angústias e atenuar sua falta de pertencimento, o que ele constata a partir de uma comparação com a vida dos outros trabalhadores com os quais convive diariamente.
O ponto de vista do filme é nitidamente existencialista, ateu, panteísta. Ao final de sua trajetória longa – ele vive mais de 80 anos -, Grainer efetivamente acredita que a floresta que ele ajudou a derrubar pode ter pensamentos próprios. Quando um galho se descola e atinge um dos colegas de trabalho, é como se a floresta se manifestasse. O filme tem longos planos em que a natureza domina tudo, e nos quais nos damos conta, por imagens, da nossa finitude e vulgaridade. A floresta já estava aqui antes de nós, e vai se recompor, e continuar depois de nós, sugere a ambientalista Claire Thompson (Kerry Condon), com a qual ele faz amizade. Outro amigo se soma para ajudar Grainier a se recompor, o indìgena Ignatius Jack (o ator canadense cree Nathaniel Arcand).
Como muitos de nós, Grainier só se dá conta de como sua família era importante e do quanto a felicidade é efêmera quando não pode fazer mais nada para resgatar o tempo perdido. Ele certamente passou muito mais tempo trabalhando do que sendo feliz ao lado de quem amava. Um drama extremamente contemporâneo.
Ao final, assolado pelas lembranças, ele ainda se pergunta porque ainda está aqui, e qual o sentido da existência, para se entregar à expertiência de entrar num aeroplano e realizar um voo, pela primeira vez na vida, o simulacro possível da corrida espacial para quem assistiu a tantas mudanças e uma possibilidade concreta de voar a muitos quilômetros do chão de terra batida e até tocar as nuvens. Sonhos de Trem é uma adaptação do livro de Denis Johnson. Clint Bentley dirigiu o filme e coescreveu o roteiro com Greg Kwedar. Os dois colaboraram recentemente no roteiro indicado ao Oscar de Sing Sing (2023). Sua experiência anterior como diretor foi no longa Jockey (2021), personagem inspirado em seu falecido pai, que era jóquei e treinador de cavalos. Neste drama ela parece se firmar como diretor de dramas mais complexos, e conta com apoio de um elenco à altura da tarefa, com veteranos como William H. Macy, que interpreta Arn Peeples, uma espécie de guru para o jovem lenhador, e em especialista em dinamites

