Em temporada de Oscar, o marketing fala mais alto, e algumas produções cuidadosas e interessantes vão ficando para trás. É o caso de A meia-irmã feia, classificada como terror social e drama, dirigido pela norueguesa Emilie Blichfeldt ( o filme é coprodução com a Polônia), e lançado no ano passado, que só recebeu indicação de Oscar pela maguiagem. Releitura do clássico Cinderela (Thea Sofie Loch Næss), que nesta história se chama Agnes, é um conto popularizado pelos irmãos Grimm.A história aqui inova por ser narrada pela meia-irmã de Agnes, que se chama Elvira. Cinderela aqui não é nenhuma garotinha ingênua. Voluntariosa, sensualidade à flor da pele, e arrogante, o filme leva a gente a repensar o mito da pobre órfã. Impossível não morrer de pena da pobre Elvira (Lea Myren), sendo submetida aos tratamentos mais absurdos e até mesmo amputando os dedos dos pés para entrar no famigerado sapatinho de cristal, aqui de cetim, e conquistar o príncipe Julian (Calmroth), um estúpido misógino podólatra que publica livros de poesia sobre o amor verdadeiro. De perto, não dá pra imaginar que ele seja capaz de escrever nada disso, tem o vocabulário de um camponês rude.
Para quem gosta do tema, não chega a ser novidade. Os tais contos infantis nada mais eram do que adaptações de histórias que constituiam verdadeiro patrimônio cultural, narradas oralmente, para, em geral, tripudiar com a imagem de nobres. Os escritores como os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm recolheram essas histórias do imaginário popular e lhe deram feições romanescas. Mutilações, mortes brutais, traições, eram componentes usuais dessas histórias de fadas que na realidade não foram imaginadas para as crianças. Mesmo A sereiazinha de Hans Christian Andersen, é uma tragédia, que termina com a moça virando espuma para ser punida por se apaixonar por um mortal com alma. Christensen, além de tudo, era moralista e um fanático religioso, reescreveu tudo sob a ótica do cristianimo, a sereia não era um ser humano, portanto o final não poderia ser outro. Já os Grimm não resistiam a uma boa história, e escreviam pensando na audiência, como bem demosntra o filme fantástico dirigido pelo britânico irreverente do Monty Python Terry Gillian, e estrelado por Matt Demon e Heath Ledger – em cartaz na Netflix para quem se interessar.
Um dos acertos e uma das maiores virtudes do filme reside no fato, justamente, da diretora ir buscar em relatos verdadeiros os métodos “científicos” torturantes de embelezamento do período, como a questão de quebrar a nariz para afinar, o que, se formos ser bem honestos, continua ocorrendo, mas com muita anestesia. O que parece ser um um conto de terror feito para chocar a plateia, nada mais é do que uma pesquisa histórica muito bem conduzida, mas que é colocada de forma nua e crua nas telas.
Na corrida pelo homem ideal, vale tudo, até ingerir ovos de tênia (solitária) para emagrecer. Não, infelizmente não se trata de fake news, nem absurdo. Uma das adeptas dessa “dieta” teria sido justamente Maria Callas, boato que nunca foi totalmente desmentido nem confirmado. A diretora não exagerou apenas para chocar a plateia. Essas práticas hediondas são milenares, há ruídos sobre o seu uso na era vitoriana por charlatões, mas até mesmo na China antiga.
Valeria a pena? O final sugere que a meia irmã mais tímida se deu melhor na vida e sobreviveu. Já Cinderela, bem, ela de certa forma lança mão da magia para conquistar o herdeiro, e da sua beleza natural, que para Julian é tudo o que importa: uma esposa troféu. Sem os filtros hollyoodianos que cercam essas histórias, a paisagem é bem mais inóspita do que a gente imaginava, e os castelos, sujos e apavorantes, sem falar nas estrebarias e na relação com a criadagem.
A madrasta é um caso à parte. Interpretada brilhantemente por Ane Dahl Torp, na visão da diretora, ela pode ser tão tóxica para suas duas filhas quanto é para a pobre Cinderela. Ela está mesmo é interessada em conhecer rapazes mais novos e casar com algum velho rico. Seu interesse pelas filhas é nulo. A história original não é tão incisiva a esse respeito, mas é óbvio que a mamãe é uma alpinista social que pouco se importa efetivamente com as filhas. Outro grande mérito do filme é mostrar que, apesar da beleza de Agnes, nem a madrasta e nem as irmãs são seres caricatos e feios, um estereótipo que a Disney se encarregou de passar ao mundo. A mãe, particularmente, é bastante sedutora, e não fosse a sua vulgaridade extrema, atrairia mais olhares masculinos do que suas filhas. O filme está em exibição no MUBI.

