O Agente Secreto: o Brasil que muita gente não viu

A aguardada estreia do longa O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, prevista para o dia 6 de novembro, teve direito à degustação de sessões sempre lotadas da Mostra Internacional de Filmes de São Paulo. A atuação de Wagner Moura, que trouxe a primeira premiação de melhor ator a um brasileiro em Cannes faz jus, mas é preciso reconhecer que ele está em boa companhia. A fantástica atriz potiguarTania Maria, de 78 anos, brilha em todas as suas cenas como Dona Sebastiana. Não chega a ofuscar o restante do elenco que traz ainda Hermila Guedes, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Izabel Zuaa, Gabriel Leone, Luciano Chirolli, Thomas Aquino, Udo Kier, é até difícil eleger um destaque. Os desempenhos corretos atestam a qualidade da direção, com certeza. O que o filme traz de excepcional, entretanto, vai bem além disso. O Brasil da ditadura, dos anos 1970, está representado de maneira contundente na forma como expõe o desespero das elites para preservar os seus podres poderes e fazer uso da estrutura política repressiva para fazer valer seus privilégios.
A ditadura militar deu respaldo a todo tipo de contravenção em nome do bem estar maior,  naturalizou a tortura, os assassinatos de conveniência.e a ascensão dos negócios escusos de pessoas de bem (ou seriam de bens?). A história do professor Marcelo, que ao longo da trama, vamos descobrir, se chama Armando, interpretado por Wagner Moura, um pesquisador de classe média e origem simples, passa por tudo isso. Uma das maiores farsas encenadas naquele período foi o discurso de que o país avançou, que na verdade foram mortas apenas pessoas que seriam, em última análise, subversivas. Os diálogos são memoráveis. O senhor se considera um comunista? pergunta o filho do funcionário da Eletrobrás e empresário Ghirotti. Não, diz Marcelo/Armando. Entre capitalista e comunista, como o senhor se definiria? Eu seria um comunista então, devolve o perplexo Armando. O diálogo tenso em um restaurante com o casal Armando, sua esposa Fátima (Alice de Carvalho), e o empresário corrupto Ghirotti (Chirolli) acompanhado do filho interpretado pelo ator Gregório Grazziozi, é um ponto alto do filme, pois revela não apenas a corrupção da classe empresarial e sua notória associação a cargos públicos, mas também o desprezo pela produção intelectual do Nordeste, algo que volta e meia aparece nos filmes de Kleber, a exemplo de Bacurau. O diretor já mencionou em entrevistas anteriores suas dificuldades para ser respeitado como intelectual no periodo em que exercia a crítica de cinema em Cannes.

Com uma direção de arte impecável, o filme está repleto de referências ao período que apontam para problemas que permanecem sem solução, e remetem aos dias atuais. Uma das questões que o filme resgata é a questão das mortes no carnaval, que se somam às mortes por execução por motivos politicos, e de como a polícia se orgulha delas, o que nos remete com facilidade ao episódio recente da matança generalizada no Rio de Janeiro. Sem falar no império das fake news, que sempre estiveram presentes no jornalismo policial, que as transforma em fatos, como foi o aso da perna cabeluda, que teria sido extraída do ventre de um tubarão, em Recife, e que atacava pessoas, é famosa, e virou até letra do Nação Zumbi na canção Banditismo por uma questão de classe. KM sugere que a perna, um elemento ficcional na trama, seria de alguma vítima da repressão. E aí entra outra questão muito importante para o filme e que o torna potencialmente contemporâneo e crítico.

Apesar da obra ser claramente afiliada ao gênero conhecido como thriller político e criminal, apesar do tom jocoso de comédia de horror em alguns momentos, pelo seu ritmo e pelo desenvolvimento narrativo, evita discursos baseados na história oficial com dados. Esse elemento, que favorece a empatia do público, pode, certamente, deixar os que preferem não enxergar a realidade daquele momento triste da vida do país, como uma mera ousadia do diretor. Pelo resultado final, vale o risco, principalmente se consideramos que muitos aficcionados da extrema direita, até hoje, consideram o filme Ainda estou aqui como uma completa invencionice do escritor e autor, Marcelo Rubens Paiva. O desfecho da trama talvez tenha se precipitado, neste sentido, mas traz uma mensagem para o Brasil de agora.

Imagens: Victor Jucá

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