O aguardado filme de Cristiano Burlan, Nosferatu, foi exibido no Festival do Rio deste ano e compõe a seleção de filmes da 49ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Para quem aprecia os filmes de gênero, talvez essa versão venha a ser decepcionante. No entanto, a ousadia é extremamente gratificante para cinéfilos em geral. O ritmo da narrativa é extremamente teatral, ensaístico, o que remete às vanguardas experimentais da modernidade mas também aos primórdios do cinema. Nosferatu, o vampiro, é um pretexto para discutir ideias de vida e morte, a finitude do ser humano e a possibilidade de transcendência (a única possível) da arte. O aspecto social e critico da obra cinematográfica de Murnau sai de cena para dar passagem à poesia e ao fascínio que o personagem ainda exerce sobre a sociedade contemporânea.
A primeira cena mostra Nosferatu chegando a uma nova cidade, que identificamos vagamente como a São Paulo do centro antigo, fugindo de Van Helsing. Como ocorre na maioria das versões, o vampiro carrega a maldição de sua condição, e é atormentado por suas vítimas, por seus feitos. O filme começa com a referência essencial da cena em que Jean-Claude Bernardet, uma inspiração para o diretor, é torturado. Essa cena será retomada por outra, com Bernardet sendo atacado pelas presas de Helena Ignez enquanto sorri de forma paródica para dizer que eles são eternos. Em sua nova cidade, Nosferatu se envolve ainda com uma atriz, que vai acarretar a sua danação eterna, e com diversos personagens que se assemelham a artistas populares, que cantam na noite, saltimbancos.
A narrativa ficcional de Burlan, mais conhecido pela Trilogia do Luto, três produções extremamente realistas sobre violência e sua família, documentais e permeadas pela autoficção, se afasta completamente dessa referência anterior para dar vazão a um painel que na verdade incorpora Nosferatu da mesma forma que o Frankenstein de Mary Shelley se tornou um ícone – como um personagem soturno que vaga pela noite à procura de uma alma e do amor, mas sem o romantistmo de versões anteriores, um sujeito pós-moderno.
Burlan finca assim mais uma estaca no coração das adaptações de figuras trágicas e destituídas de função como já havia feito em Ulisses (2024). Em meio a encontros e desencontros, pontuados por Van Helsing, Nosferatu se move pela cidade e por uma paixão que será a sua ruína num roteiro alinhavado por Emily Hozokawa, Fernanda Farias e Rodrigo Sanches (Nosferatu), que também integram o elenco.
Nosferatu (Brasil, 2025)
Direção Cristiano Burlan
Com: Rodrigo Sanches, Helena Ignez, Jean-Claude Bernardet, Paula Possani, Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni, Hélio Cícero,Biagio Pecorelli, Rebecca Leão
PB 88 min.
Mostra Brasil
26/10 21:10 CINESESC
29/10 15:00 RESERVA CULTURAL – SALA 1

