Fábula distópica de Mascaro: O último azul

O filme O último azul ganha estreia nacional. O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido por subverter papeis de masculinidade tradicional, como visto em trabalhos anteriores como Boi Neon (2015) e de questionar o Estado burocratizado e autoritário por um governo totalitário cristão, como se pode conferir em Divino Amor, está de volta. Seu mais recente trabalho, O último azul, premiado em Berlim, e selecionado como filme de abertura no Festival de Gramado, é a prova de que contestar regimes totalitários está mesmo no cerne das suas preocupações como cineasta, bem como as protagonistas femininas fortes e disruptoras.

Em O Último Azul acompanhamos a trajetória de uma mulher idosa, Tereza (Denise Weinberg), de 75 anos, que é obrigada a se aposentar e retirar-se para viver numa colônia longínqua na Amazônia. Sua filha assume o controle da sua vida, ela perde totalmente a autonomia,  o dinheiro da aposentadoria é monitorado pela filha. Tereza não pode realizar nenhuma compra e nem mesmo viajar sem a autorização dela. Em sua primeira tentativa de rebelião, denunciada pela própria família, que alega querer apenas “o seu bem”, ela acaba sendo resgatada de forma truculenta em um veículo chamado ironicamente na linguagem coloquial de “cata-velho”, semelhante às caçambas utilizadas no passado para retirar animais das ruas e levar para o sacrifício ou ainda das carroças de carregar entulho.
A nação distópica chamada Brasil está novamente presente, e, num futuro próximo, estamos vivendo num país ainda mais pobre, miserável, em que somente os ricos, que aqui sequer aparecem em cena, pois estão fora do alcance visual das pessoas simples, que vivem às margens do rio, têm o direito de decidir o que fazer. As distopias com frequência se colocam num futuro próximo, ou até mesmo numa realidade paralela. Mascaro usa o termo “quase distópica” para referir-se a sua fábula, que tem componentes do fantástico, e que pode ser incluída no que a escritora canadense Margaret Atwood, a autora de “O conto da aia”, obra que virou série aclamada, chama de ficção especulativa, narrativa que pode estar se referindo a eventos futuros, mas talvez atuais, ou até passados. A ficção especulativa reúne elementos do terror, do fantástico, e até da ficção científica para discutir as possibilidades de existência, explorando os limites do ficcional, e por ser um termo complexo acaba se resumindo à literatura.
Denise Weinberg não é uma novata neste tipo de abordagem, sua personagem em Aurora, 2068, curta-metragem de Gustavo Brandão e Javier Contreras, já discutia assuntos ligados ao etarismo e ao prolongamento artificial da vida, num ensaio de ficção científica sobre a existência de um projeto de eternização das memórias em corpos sintéticos. Em O último azul, predomina o tom fantástico da ficção especulativa para narrar a história de Tereza, que é cerceada por um poder que não tem imagem, não tem líder – o governo é algo que se vislumbra por meio de funcionários uniformizados que reproduzem falas aprendidas em algum treinamento, sem nenhuma empatia. Denise, uma das fundadoras do Grupo Tapa, brilha da primeira cena até o fim, triunfal, em que ela desafia as águas e os cânones desse poder invisível que tenta aprisionar os desejos humanos para satisfazer metas de produtividade. A mulher que entra em cena insegura, sem falas, quer viajar, correr perigo, apostar na vida, e no amor, que surge de improviso numa barca navegando pelo rio Amazonas. Ao iniciar a viagem de seus sonhos, que se transforma num rito iniciático, ela conta com o apoio do barqueiro Cadu, vivido por Rodrigo Santoro, que vai lhe apresentar novas perspectivas e possibilidades de vida. Após essa travessia, importante, Tereza vai encontrar novos amigos. Sua nova companheira é Roberta, interpretada pela atriz cubana Mírian Socarrás, popular artista de cinema e televisão em seu país, e ex-apresentadora do famoso Cabaret Tropicana,  que faz uma simpática vendedora de bíblias digitais. A descolada Roberta vai ajudar Tereza a burlar o decreto, e aproveitar ao máximo essa fase madura da vida. Contra o etarismo e a burocratização da felicidade, a narrativa fecha com as duas deslizando pelas águas do rio ao som de Rosa dos Ventos, numa explosão atlântica. O filme se encontra em cartaz nos cinemas nacionais, e no dia 4 de Setembro, o Cine Bijou promove um debate com Denise Weinberg, mediado pelo crítico Amílton Pinheiro, a partir das 21h, em São Paulo, Praça Franklin Roosevelt, 172 – Consolação, São Paulo – SP, 01303-020. A edição de setembro da Revista Phantastika traz entrevista com Gabriel Mascaro.

Imagens: Guillermo Garza/Divulgação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *