Neste último sábado, dia 12 de julho, o maior crítico de cinema e ensaísta brasileiro, Jean-Claude Bernadet, nascido na Bélgica e naturalizado brasileiro em 1964, se despediu definitivamente. Deixou um legado imenso, composto por pesquisas acadêmicas, artigos, críticas, roteiros e performances. Nos últimos anos, era presença mais frequente em festivais e filmes como ator, além de ter intensificado sua produção literária – Aquele rapaz (1990) foi a primeira obra -, de autoficção, e memórias, sendo a última publicação Wet mácula: memória/rapsódia (2023), em diálogo com Sabina Anzuategui e Heloísa Jahn.
Com a perda gradativa da visão, e os transtornos causados pelo HIV, e mais tarde, por um câncer na próstata, Bernadet foi se envolvendo cada vez mais com outras formas de expressão. Em 2019, desistiu oficialmente de tratar de sua doença recusando-se a contribuir para o prolongamento artificial de vidas sob tratamentos violentos e desumanos. Foi ator dos filmes Fome (2015), premiado no Festival de Brasília, Antes do Fim (2017), em que contracena com a atriz e diretora Helena Ignez, e de Nosferatu (2025),ainda inédito, trabalhando com o cineasta Cristiano Burlan, uma parceria profícua e constante, com filmes que exploram temas como a velhice, a morte e a miséria, tendo São Paulo como cenário privilegiado, e sempre buscando distância do que ele chamou de “estetização da miséria” no cinema brasileiro.
A carreira acadêmica – foi cofundador do extinto curso de cinema da UNB e professor da ECA USP – nunca o impediu de atuar em diversas frentes. Foi assistente de direção de João Batista de Andrade em Gamal, o delírio do sexo (1970). Como roteirista, destaca-se a colaboração com Luís Sergio Person em O caso dos irmãos Naves (1967) e com Sérgio Ricardo em A noite do espantalho (1974). Na chamada retomada da produção na década de 1990, colaborou intensamente com Tata Amaral, assinando roteiro com Roberto Moreira de Um céu de estrelas (1996), e com Fernando Bonassi em Através da Janela (2000) . Outro parceiro importante foi o pesquisador e cineasta Kiko Goifman, com quem ele Filmefobia (2009) e faria Periscópio (2012), obras experimentais e provocadoras.
No entanto, não podemos nos esquecer de sua contribuição histórica para a crítica brasileira. Bernadet sempre ressaltou a importância do cineclubismo em sua formação de crítico no Brasil, que começou no cineclube Dom Vital, e na sua preocupação na construção de um cinema brasileiro que não passasse pelo engessamento dos moldes europeus do fazer cinema, tema de sua tese publicada em livro O autor no cinema: a política dos autores: França, Brasil – anos 1950 e 1960 (1996), e do seu próprio exercício da crítica. Punido pelo AI-5, e anistiado em 1979, fez do exílio forçado na França outra oportunidade de reflexão sobre o cinema. Essa visão se refletia também no seu posicionamento enquanto crítico militante, como ele se considerava. Foi um dos primeiros a apontar a crescente importância do novo cinema pernambucano, que consagrou cineastas como Lírio Ferreira, Claudio Assis, Hilton Lacerda, Marcelo Gomes, e ainda Cristiano Mascaro, Kleber Mendonça Filho e Renata Pinheiro numa segunda “onda” de renovação. Nada tão excepcional se pensarmos que a expressão Cinema Novo não era recorrente e surge a partir de discussões na Cinemateca Brasileira das quais ele participou ainda na década de 1950, e de uma mostra sobre cinema brasileiro que resultou numa grande disputa de narrativas hegemônicas assinaladas por divergências regionais. 
Sem Bernadet, nossa bibliografia crítica sobre o cinema seria infinitamente mais pobre, e nossa formação também. Obras como Cinema Brasileiro: Propostas para uma História (1978), e Brasil em Tempo de Cinema (1967) são leitura indispensável para quem pretende se iniciar na trajetória do cinema brasileiro contemporâneo. E são agradáveis de ler, não espere encontrar ali uma redundância de citações, são construções autorais, vivências, reflexões. Que lhe granjearam reputação, mas também dissabores. Nunca fugiu de uma polêmica, nem deixou de exercer seu papel como crítico, como na discussão com Gláuber Rocha, uma disputa que marcou a vida e a carreira de ambos. Bernadet defendia um cinema menos “panfletário” embora reconhecesse a genialidade do diretor, referenciado por ele em sua obra, por considerar que alguns personagens e cenas remetiam mais ao universo da política do que ao cinema. A discussão, entretanto, era bem mais complexa do que qualquer embate que pudesse resultar em modismos e factoides tão em voga no jornalismo. Essa visão se torna mais clara em Cineastas e Imagens do Povo (1985), em que Bernadet cita uma certa tendência cinemanovista oriunda da classe média de olhar para a miséria do lado de “fora”, com piedade, culpa e algum preconceito, porque essa postura estaria esvaziando o discurso político. Essas questões tomam corpo em uma obra anterior, O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Cinema (1983), escrita em colaboração com Maria Rita Galvão.
O sotaque francês foi uma marca registrada de Bernadet, que ele nunca abandonou, apesar de seu português fluente. Nascido em Charleroi, Bélgica, em 1936, e registrado como cidadão francês, chegou ao Brasil com 13 anos de idade, com o pai, a madrasta e o irmão. Naturalizou-se brasileiro em 1964. Frequentou as aulas do SENAI, e foi por meio das atividades em cineclubes e cinemateca que começou a escrever e a dar aulas. Foi convidado por Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, pesquisador e um dos fundadores da Cinemateca Brasileira a compor a equipe de colaboradores do Suplemente Literário de O Estado de S. Paulo, um marco do jornalismo cultural brasileiro, idealizado por Antonio Candido e Décio de Almeida Prado. Foi também Salles Gomes quem levou o jovem Bernadet para lecionar no curso de Cinema da ECA, numa época em que a maioria dos professores universitários não era graduado. Como crítico, ele passaria ainda pelos jornais Última Hora e Diário Popular.
Desde então, sua presença na cinematografia nacional foi recorrente, e fundamental, como se pode aferir pela emocionante despedida realizada na Cinemateca Brasileira, com discurso de sua única filha, Lígia, de seu casamento com Lucila, e de ex-alunos ilustres como Ismail Xavier, amigos, e parceiros como Caetano Gotardo, que entoou Alabama Song em sua homenagem. Bernadet exorcizou a própria morte em cena tantas vezes, que parecia eterno.
Imagens em Tiradentes: Leo Lara/Universo Producao
Demais Imagens: Divulgação

