Um dos filmes com mais indicações ao Oscar, e dado como certo na conquista de melhor filme e direção, a obra Uma batalha após a outra, de Thomas Paul Anderson, baseada no famoso romance de Thomas Pynchon Vineland, atira no que vê e acerta algo que não consegue enxergar – a visão especulativa e premonitória do autor sobre os Estados Unidos da América atual. Nos delírios pós-modernos de Pynchon, homens tão diferentes como o hippie Zoyd Wheeler e o promotor federal Brock Vond se entrecruzam numa nação que perdeu o rumo e está atravessada por conflitos entre imigrantes, pretos e milicias wasp.
No filme, convenientemente, essas questões são atualizadas, e isso é extremamente acertado. A questão é que o filme começa num ritmo de HQ frenética, e quase após a metade, entra num drama familiar entre pai e filha representando as velhas gerações e as novas, sem nenhum enlace com o que se viu anteriormente, desperdiçando a oportunidade para aprofundar as questões instroduzidas anteriormente, como o próprio grupo de contracultura French 75. Na primeira parte, brilham igualmente o personagem Bob Ferguson (Leonardo di Caprio), a versão cinematográfica atualizada do hippie Zoyd, perseguido pelo coronel Lockhaw (Sean Penn), ao lado de Perfidia (Teyana Taylor). As adaptações de personagens de PTA são absolutamente geniais e necessárias, afinal a obra original remetia a outro momento e ao governo Reagan, mas o que causa estranheza é a mudança de estratégia narrativa, por assim dizer.

O “clube dos aventureiros de Papai Noel”, sonho de consumo de Lockjaw, a versão cinematográfica de Brock Vond, é hilária, e sua equipe remete ao ICE de Trump. Os maneirismos de Sean Penn caem como uma luva no personagem. DiCaprio está muito bem como representante da velha guarda da contracultura estadunidense. Sua filha Willa (Chase Infinitti) brilha mais do que a personagem da mãe, Perfidia – Teyana ganhou Globo de Ouro pelo papel -, mas é quase como se essa história fosse outro filme. Apesar desse tom desequilibrado, o filme reúne personagens que expressam muito bem as contradições atuais daquele país e sua posição no mundo, e, portanto, cumprem de certa forma com o desafio da proposta original do romancista, um autor difícil de adaptar.
Regina Hall e Benicio del Toro, em memorável participação ajudando o colega Bob a fugir, despontam como fundamentais. O filme acaba de conquistar o Bafta 2026, e tudo indica que deve sair vitorioso no Oscar deste ano. Uma produção audaciosa, com certeza. Em entrevistas, Teyana Taylor mencionou que o volume de cenas cortadas daria praticamente um outro filme. Pelo resultado final, fica a sensação de que são, efetivamente, dois filmes.

