Pecadores: Terror sobre as raízes negras e fantásticas do blues

O filme Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, foi o recordista de indicações para o Oscar deste ano, com 16 indicações, inclusive de direção e roteiro. No último domingo, dia 1 de Março, Michael B. Jordan arrebatou o prêmio de melhor ator pelo Best Actor Awards (ex-Sag, premiação do sindicato dos atores) pela sua performance. Quinto filme dirigido por Coogler, diretor da franquia Pantera Negra, a história está centrada na discussão das raízes do blues e sua relação com a mitologia gótica dos vampiros de forma inusitada e ousada. A grande autora estadunidense Anne Rice foi buscar as origens de seus vampiros, sempre brancos, no Egito, na Europa, e somente a recente minissérie Entrevista com o vampiro (2022), ainda em exibição na Prime Video, deu conta de mudar essa realidade que seria óbvia pela ancestralidade cultural dos locais que servem de cenário para as histórias – o sul dos Estados Unidos e berço do blues. Coogler não se preocupa com as origens mas lança mão do imaginário canônico sobre vampiros para discutir a apropriação cultural do legado do blues pela indústria cultural branca, por meio da saga dos irmãos gêmeos Smoke e Stack, que retornam à cidade natal para recomeçar a vida mas têm de lidar com fatores sobrenaturais.
A história se passa entre os dias 15 e 16 de outubro de 1932, em Clarksdale, Mississippi, na região do Delta do Missisipi, cercada por fazendas de extração de algodão, a única forma de subsistência de muitas famílias negras pobres, sob o contexto histórico do domínio da  Ku Klux Klan, proprietária do local que os irmãos pretendem explorar como casa noturna. Essas referências históricas estão lá, embora sem nenhuma contextualização enquanto narrativa cinematográfica. Enriquecidos pela associação com os gângsteres, os irmãos gêmeos Elijah “Smoke” Moore e Elias “Stack” Moore, que voltam à terra natal para abrir uma rentável juke joint – uma casa noturna com música ao vivo dedicada à música negra. Para colaborar com eles, contratam o pianista Delta Slim (Delroy Lindo, Bafta como ator coadjuvante) e a cantora Pearline (Jayme Lawson), a ex-esposa de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku, que também acaba de conquistar o Bafta pelo papel), como cozinheira, os comerciantes chineses Grace e Bo e o lavrador Cornbread (Omar Benson Miller) como o segurança da casa. Michael B Jordan interpreta os dois papéis dos gêmeros. Ao lado deles, o jovem Sammie (Miles Caton), dividido entre a fé e a sua vibrante guitarra, na verdade o personagem que interpreta o lendário Buddy Guy que ao final do filme ressurge interpretado pelo próprio artista, uma lenda viva do blues.

O blues é a música do demônio, do mal. Reza a lenda do blues que o guitarrista Robert Johnson teria vendido a alma ao diabo. Exatamente como é dito, a sociedade branca e escravocrata ama a música, mas não seus criadores. A riqueza surpreendente dos gêmeos, que ganharam dinheiro em Chicago como gântsteres em plena lei seca,  a à volta as suas raízes, bem como a abertura de uma casa para música negra, vai ser o mote para a história do filme se desenvolver . O primo de ambos, Samuel, vive o conflito entre abraçar a sua arte, e ser um cristão, é apoiado pelos primos, que acabam fazendo um pacto para salvar o jovem das garras do demônio. Sammie é na verdade a versão mais acabada de um griô, guardião da tradição oral na África Ocidental, o contador de histórias, músico, poeta e genealogista que preserva a história, cultura e mitos de um povo por gerações ainda que todas essas referências não sejam exploradas como deveriam no longa ambicioso de Coogler.

A ambição de Coogler vai além, entretanto, de transformar os vampiros e griôs em ídolos pop. É a ancestralidade da grande nação africana que está em jogo, e, portanto, sua alma. A ideia de transcendência neste filme está intrinsecamente ligada à arte e à música. Há um embate entre Deus e o Demônio, e as origens das crenças originárias do vodu. É o distanciamento dos gêmeos de suas raízes que traz a ruína, e não a ambição. Na nobre intenção de fazer a América verdadeiramente grande outra vez, ele invoca outros imigrantes que fizeram a história daquela nação, como os red necks, os irlandeses, mas recusa uma aliança tácita de oprimidos contra opressores baseada apenas em ganhos materiais.
Na juke joint, Coogler reúne representações dos imigrantes que fazem parte  da formação dos Estados Unidos da América e que vem sendo desprezados, à exceção dos latinos. A discussão sobre as práticas religiosas antigas, também, não é aprofundada. Com liberdade total de figurino, referências musicais e canônicas, Coogler constrói um painel da história do país e do blues que não é usual no cinema de Hollywood. Não é perfeito, deixa a desejar, mas é muito interessante e extremamente enriquecedor. No tocante ao gênero fantasia e terror é (quase) uma reparação histórica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *