O Frankenstein de del Toro e as premiações

O Frankenstein de Del Toro, apesar de excepcional e ousado, mostrando um bom desempenho de Jacob Elord, vem sendo ignorado pelas premiações apesar de suas 9 indicações ao Oscar em categorias importantes – melhor filme, direção de arte, maquiagem e cabelo, fotografia, roteiro adaptado, som, figurino e ator coadjuvante, para Elordi, em performance bastante elogiada.No Oscar, Elordi vai ter de competir com Stellan Skarsgård, Benicio del Toro,Sean Penn e Delroy Lindo, mas seu trabalho é importante e já conquistou prêmios como o Critics Choice. Muitos ainda apostam em sua vitória no Oscar. Mia Goth também faz a diferença nesta versão, com seu duplo papel de objeto amoroso do monstro e de mão do cientísta, mas seu trabalho não mereceu nenhuma menção especial.
A versão para o cinema do cineasta Guillermo del Toro vem provocando controvérsias, e não é para pouco. O monstro que se tornou um ícone das cinematografia distópica no mundo, ingênuo, com seu olhar desconcertante, suas inquietações e suas solidão, surge aqui apenas como a criatura, despida da roupagem hollywoodiana que a consagrou como um boneco desengonçado e quase cômico, com parafusos à mostra. A criatura de del Toro é estranha, um adulto com uma sensibilidade quase infantil, mas em nada se assemelha ao sisudo Boris Karloff, nome artístico do ator britânico William Henry Pratt que o interpretou na versão de 1931, a mais famosa, e cuja imagem moldou o imaginário do monstro para o mundo moderno. A versão de del Toro, de certo modo, está muito mais próxima à história criada por Shelley do que a versão para o cinema de. Em 1816, Mary, Percy Shelley, se marido, John Polidori e Lord Byron criaram uma disputa para ver quem conseguiria produzir a melhor história de horror. E assim nascia Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Entre o horror e a ficção científica, a criação de Shelley se tornaria por si só uma referência, sendo considerada o romance mais popular de língua inglesa até hoje.
O cientista Victor Frankenstein, o criador da criatura, interpretado por Oscar Isaac, dá um tempero especial à trama, embora mantendo a versão original. O criador se arrepende de ter concebido tamanha atrocidade. O repúdio do cientista é retomado nesta versão, e configurado como algo muito além do medo de perder o controle. No Frankenstein de del Toro, o filme é narrado primeiro do ponto de vista do criador do ser fantástico, e depois do ponto de vida do suposto monstro. Ao olhar do cineasta, Victor teria sentido ciúmes de seu pupilo, muito mais do que horror e repulsa moral ao resultado de suas pesquisas.
Para del Toro, o monstro é a maior vítima. Nenhuma das versões anteriores cita o monstro como um intelectual que é alfabetizado com a obra O Paraíso, de Milton. De modo geral, ele parece um troglodita patético, buscando uma humanidade que jamais vai ser capaz de alcançar.  A sensibilidade do monstro se contrapõe à frieza do cientista, que desdenha tudo o que não pode mais controlar, e que perde o interesse pela sua criação, mais perigosa do que ele poderia supor, e praticamente indesejável, incapaz de alcançar a perfeição idealizada de submissão a sua vontade.
O ator guatemalteco Oscar Isaac e Jacob Elordi, ator australiano de ascendência basca, emprestam um visual latino e até romântico aos personagens e em especial, ao  protagonista, um ser sem nome, formado a partir de muitos outros homens, cujas memórias o atormentam em forma de pesadelos, e que frequentemente costuma ser associado ao nome do cientista qe o gerou, Frankenstein.
O vínculo de ambos sugere uma relação entre pai e filho. O romance original realça o repúdio e a irresponsabilidade do cientista diante da criação da vida de forma artificial, mas não se detém tão profundamente na questão maior que a criatura introduz em cena – a dor da rejeição, a impossiblidade de realizar suas fantasias amorosas e afetivas, e a solidão da eternidade, de ser imortal, o que leva à uma identificação com outro grande ícone do horror, o conde Drácula, e o de ser  discriminado como aberração, uma característica valiosa que del Toro poderia ainda ter explorado de forma mais acentuada.
O cientista, entretanto, aqui parece mais afetado pela paixão não correspondida pela sua cunhada, interpretada por Mia Goth, que se apaixona pela criatura, o que se torna insuportável para ele. A atriz surge em dois momentos diferentes e cruciais, performando a mãe de Victor, a sofrida baronesa Claire, e depois a futura cunhada de Victor,  Elizabeth Harlander, em figurinos deslumbrantes de Kate Hawley, reproduzindo a proeza que já havia realizado em X: A marca da morte, em que interpreta a velha assassina Pearl e a moça, a atriz pornô Maxine Minx. Tanto por seus figurinos quanto pelo seu duplo papel, ela evidencia a ausência de amor e de vínculos afetivos genuínos na vida de Victor, o que marcaria profundamente o desenvolvimento de seu caráter. Pela sua incapacidade de compreender esses limites, e não necessariamente por questões morais, é que ele vai brincar de Deus.
Goth vai do ar ingênuo e infantil à sensualidade absoluta com sua personagem sedutora que não teme mergulhar nos seus desejos. Sua impulsividade é incompatível com as expectativas que giram em torno de uma mulher de sua classe social naquele período. Shelley, como se sabe, acabou publicando de forma anônima seu romance por imposição do editor, que queria o nome de seu marido nos créditos, conforme narrado na cinebiobrafia Mary Shelley (2017), de Haifaa al-Mansour. Harlander não existe no romance da autora inglesa, cuja única personagem feminina se chama Elizabeth Lavenza, prima de Victor, e é um retrato da mulher submissa daquele período. Para introduzir uma personagem feminina relevante dentro da história da criatura, Hollywood criaria A Noiva de Frankenstein (1935), que está sendo adaptada em nova versão, chamada The Bride, por Maggie Gyllenhaal, e deve estrear em 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *