Autora de artigo sobre a Capitã Marvel, publicado no volume 1 da Coleção Temas, Afrofuturismos, Xenofobia e Feminismos, e pesquisadora da representação feminina na cultura pop e super-heroínas, lançado em João Pessoa em setembro durante a Intercom
P- Como surgiu o seu interesse pelo tema da violência de gênero nos Comic Books e nas narrativas de super-heróis?
R- Vou falar aqui mais do cinema. Sobre os Comic Books, eu tenho conhecimento apenas do que pesquisei para fazer as conexões com as personagens super-heroínas nos filmes. Desde criança assisto muitas produções audiovisuais da cultura pop: animações, séries, filmes, principalmente blockbusters e de grandes bilheterias. A cultura pop americana sempre esteve presente na minha família principalmente por meio da música e do audiovisual. Então, ainda criança, tomei um gosto muito grande por gêneros de ação, aventura, super-herói. Mas desde lá, sempre me intrigou ver mulheres como princesas, mocinhas a serem salvas, secretárias, parceiras românticas dos heróis masculinos, legítimos estereótipos do sexo frágil. Relembrando um pouco, filmes bastantes populares da década de 1990 que cansei de assistir como as franquias de Indiana Jones, versões do Batman, Exterminador do Futuro, Zorro, dentre outros, e que apesar de muitos títulos terem sido produzidos nos anos 80, reverberaram durante toda a década de 90 nas videolocadoras e canais de TV aberta e a cabo. Esses títulos possuem protagonistas masculinos e são pouquíssimas exceções à regra. A falta de diversidade me levou a pesquisar a representação feminina durante a dissertação de mestrado. E foi durante a pesquisa que surgiu a questão sobre a violência de gênero. Ao pesquisar a representação de super-heroínas na década de 2010, começaram a surgir diversos aspectos sobre essas personagens que se caracterizam como violência de gênero. E a invisibilidade não deixa de ser uma forma de violência. Ao longo da história tivemos apagamento de mulheres e suas conquistas. Por qual motivo isso não se repetiria também nas representações de filmes? Mas ao pesquisar super-heroínas, o mais chocante é descobrir que mesmo elas tendo superpoderes, elas ainda sofrem abusos, principalmente psicológicos, e o quanto é difícil ter uma personagem que não reflita sobre a própria condição de ser mulher, que a narrativa insistentemente não tente jogar essas mulheres novamente para uma posição de submissão.
P– Embora seu artigo seja sobre a Capitã Marvel, sua pesquisa inclui também a Mulher Maravilha. Essas personagens vêm sendo ovacionadas como ícones feministas pela mídia especializada e pelos coletivos feministas. Você concorda?
R– Concordo em parte. Mulher-Maravilha quando criada por William Moulton Marston, em 1941, surgiu com uma proposta feminista inspirada nas mulheres que faziam parte da vida do autor, que tinham forte ligação com movimentos feministas. Somente a relação entre a vida pessoal de Marston, as mulheres de sua vida e a personagem já renderiam um bom assunto, mas não vou me estender. Teria que falar também sobre as concessões de Marston, como o vestuário de pinup exigido pela editora para conseguir implementar a personalidade que ele queria, entre outros. Mas o que acho fundamental apontar aqui é que ela é uma personagem mulher e feminista, super-heroína, com sua própria revista, lançada três anos após o Superman (1938) e dois após Batman (1939). Após a morte de Marston, em 1945, ela tem um apagamento nas suas publicações, e suas aparições se resumem à secretária da Liga da Justiça. Na década de 70, quando houve uma intensificação do movimento feminista, caracterizando uma nova onda, a imagem da Mulher-Maravilha voltou a ser associada ao movimento e o seu retorno nos quadrinhos aos moldes de Marston foram bem aceitos. Essa fama lhe rendeu a série em 1979, protagonizada pela ex-miss Estados Unidos, Lynda Carter, icônica pelas cenas com seus braceletes e giros para transformação em super-heroína. Até hoje, a Mulher-Maravilha pode ser considerada a super-heroína mais conhecida já criada. Isso é uma grande conquista para o movimento, porque o feminismo sempre lutou pela igualdade de gênero e de uma forma geral, pela igualdade entre as pessoas. E se temos uma personagem super-heroína tão famosa quanto outros super-heróis masculinos, há tanto tempo, devemos considerar uma vitória. Mesmo que ainda seja um espaço pouco diverso inclusive de outras representações. Não é difícil contar nos dedos as super-heroínas que são protagonistas, assim como pessoas que fugam do espectro do homem branco ocidental. Nos últimos anos vemos cada vez mais inserções de super-heroínas e isso demonstra a relevância de Mulher-Maravilha ao longo desses anos todos, pois o próprio público acaba querendo ver mais diversidade nesses espaços. O filme da Mulher-Maravilha de 2017 foi o primeiro filme de super-herói, após um longo período, com uma super-heroína como protagonista. Gerou tanta bilheteria para o estúdio quanto Batman x Superman (2016), que também conta com a sua participação. Conquistou público suficiente para lhe render continuidade em um segundo filme. O filme da super-heroína rendeu tanto ao estúdio que ela foi confirmada para a sequência Mulher-Maravilha 1984 (2020). Há boatos de que ela exigiu que o produtor Brett Ratner, acusado de assédio sexual e homofobia não estivesse mais associado à franquia, caso contrário ela não estaria no filme. Segundo a própria atriz, foi um sentimento coletivo de não continuar com Brett que levou a produção a demiti-lo. De qualquer forma, o posicionamento da atriz por meio do apoio ao Times Up, fez com que o filme Mulher-Maravilha 1984 fosse o primeiro a cumprir as “Diretrizes contra o Abuso Sexual”, documento que define normas a serem cumpridas na produção de filmes, entre elas a proibição de audições em hotéis e residências privadas, antes mesmo do documento entrar em vigor pelo senado americano.
Até este ponto, concordo que a personagem deva ser ovacionada pelas suas conquistas. O ponto que discordo é justamente com relação à representação que a personagem tem em seu próprio filme. Na análise realizada em minha dissertação, a personagem fora tipificada como uma mulher em conflito com a feminilidade. Isso significa que a narrativa em diversos pontos coloca em questão como a super-heroína deve se portar por ser uma mulher. A identidade feminina da princesa Diana fica em evidência para o desenvolvimento da narrativa. Ela viveu em uma sociedade afastada do mundo “dos homens”, composta de mulheres Amazonas, guerreiras de idade longeva que foram criadas para proteger o mundo. Para ela, ser mulher até então, era dessa forma. e ao encontrar a nossa sociedade, tudo que ela conhecia sobre si mesma e como ser mulher vai sendo colocado como um legítimo absurdo. Suas roupas são inadequadas (destaco a cena em que ela chega na Inglaterra com Steve e ele tenta insistentemente cobrir o seu corpo), seu modo de agir é usado como piada (cena de “troca de roupas” muito utilizado em comédias românticas em que a pobre menina – nerd, feia ou desajeitada – inicia sua transformação com um look arrebatador, no caso de Mulher-Maravilha, o seu look arrebatador, deve ser escondido, para que ela passe despercebida e “pareça” uma mulher normal), sua opinião é colocada como irrelevante e ingênua (a cena em que ela tenta falar no conselho formado apenas por homens velhos e brancos e é impedida por Steve, temente ao que os outros homens iriam pensar dele, deveria ser no mínimo revoltante para qualquer feminista), suas cenas de revelação de figurino e luta em slow motion em vez de mostrar sua força acabam por se revelar como um grande fetiche para o olhar masculino, exaltando a beleza e sensualidade da heroína (também exaltada pela fala do personagem Sameer “estou assustado e excitado ao mesmo tempo”). Devemos considerar o momento histórico específico retratado no filme que é o contexto do período da Segunda Guerra Mundial? Acredito que justamente por ser um filme ficcional, existe uma grande liberdade criativa de recontar a história de outros pontos de vista e mudar estereótipos negativos já tão conhecidos pela indústria do cinema, que poderiam ter dado ainda mais poder à personagem. No final, são escolhas de roteiro, de narrativa, de direção que definem como a personagem vai ser apresentada nas telas.
P- Você diria que a série Ms Marvel reproduz o mesmo conceito do filme?
R- Há vários sentidos de conceito que podem ser interpretados. Se for no sentido de empoderar a imagem feminina num espaço representativo, sim, concordo plenamente e posso dizer que trazer uma representação de uma descendente paquistanesa como super-heroína dando destaque a sua origem e cultura me enchem de esperança para ver mais mulheres diversas nas telas. Não posso dizer se descendentes paquistaneses se sentiram representados ou se foram cometidos equívocos, pois ainda não pesquisei muito sobre esse tema. Mas já é uma conquista e uma abertura de espaço não só para heroínas, mas para heróis mais diversos e representativos. Por outro lado, tratando mais sobre o estilo de produção, os dois audiovisuais foram pensados para públicos diferentes. Enquanto Capitã Marvel tem uma seriedade para contar sua história, Ms Marvel tem uma leveza ao tratar de assuntos sérios como a discriminação sofrida por descendentes paquistaneses nos EUA. A série é voltada para adolescentes da mesma idade da personagem. O estilo torna isso perceptível devido à dinâmica utilizada para contar a história, uso de enquadramentos, movimentos de câmera, e principalmente problemas com resoluções rápidas.
P- Apesar de pertencer a outro universo imaginário, a princesa Leia Organa, de Star Wars, é considerada também como personagem feminista, sinônimo de empoderamento feminino nas narrativas de SciFi, e essa perspectiva vem sendo ressuscitada pela série Obi Wan Kenobi, por meio da garotinha Leia, interpretada pela Vivien Lyra Blair. Acha que existem aproximações?
R- Não me vejo em posição de responder essa pergunta pois ainda não assisti à série de Obi Wan Kenobi. Vai ficar para uma próxima.
R- Qual o motivo de tanto interesse por parte dos grandes estúdios em personagens femininos fortes, na sua opinião?
P- Lucro. Grandes estúdios visam lucro. Se o público for assistir personagens femininas fortes eles irão produzir cada vez mais filmes com essas personagens. Tivemos algumas tentativas anteriores de super-heroínas que resultaram em fracassos para os estúdios como Elektra (2005) e Mulher-gato (2004). Acredito que duas são as diferenças do que aconteceu há um tempo e o que acontece hoje. A primeira, se relaciona diretamente à fatia do público que é atingida por essas produções. Até pouco tempo atrás, o maior público de filmes de ação, aventura, super-herói, seja em quadrinhos, séries filmes e animações era um público masculino. Não que não houvesse um público feminino, vou explicar. No imaginário social, mulheres deveriam ser gentis, cuidar do próximo, e não proteger o mundo de vilões e nem utilizar violência ou armas, isso cabia aos homens. Isso foi amplamente estudado pela psicologia, pela sociologia, pelos estudos culturais, por estudos de cinema, pelas teorias feministas, pelos estudos de gênero, entre outros. Apesar de termos cada vez mais mulheres inseridas no mercado de trabalho, em posições de liderança, em funções antes consideradas masculinas, esse pensamento ainda circula fortemente em nossa sociedade, do contrário, não estaríamos mais questionando isso. Ao longo dos anos esse pensamento vem mudando e devemos atribuir aos movimentos feministas essa mudança, apesar de termos muito ainda a transformar. Assim, muitas mulheres puderam se inserir em espaços antes somente ocupados por homens e vislumbrar possibilidades antes limitadas por estigmas sociais. E aqui entra o segundo ponto, hoje temos um público muito grande de espectadoras para essas produções também. E temos uma facilidade que é a internet, para que o público possa dar um feedback no que gosta ou não nas personagens, se essas representações funcionam ou não, e até mesmo sobre o que mais gostariam de ver nas telas. Isso auxilia hoje os grandes estúdios a produzir filmes focados nas tendências de seu público, tendo garantia de rentabilidade ao conseguirem deixar seus fãs contentes.
P- Você pretende prosseguir pesquisando esse tema?
R- Sim, com certeza. Existem muitos pontos ainda a se investigar sobre as super-heroínas e não somente elas, mas mulheres no cinema em geral. Me interesso hoje principalmente pela relação atriz/personagem/mulher. Um vínculo criado a partir do filme que tem a participação da indústria, da mídia e dos fãs pela qual essas atrizes/personagens/mulheres reverberam conflitos de representação. Venho as chamando de “mulheres em ação”, pois não estão em ação somente no filme em que atuam, mas também fora das telas enquanto mulheres e atrizes. Nas redes recebendo elogios e ataques misóginos, utilizando as plataformas como espaços de luta política ou simplesmente sumindo desses espaços por terem se tornado ambientes tóxicos. Pretendo estudar casos como de Gal Gadot em relação às “Diretrizes contra o abuso sexual” e da atriz Scarlet Johansson em seu processo contra a Disney pelo descumprimento de contrato, no qual ambas conseguiram o que lhes era de direito. Também pretendo analisar posicionamentos como os de Brie Larson, que rebateu fortemente as críticas feitas à personagem Capitã Marvel por ser uma super-heroína que não sorri, ao publicar em suas redes sociais os cartazes de filmes de Capitão América e Homem de Ferro alterados para que os personagens aparecessem sorrindo, levantando o debate acerca das características atribuídas aos gêneros.