Eclipse: o espelhamento na obra de Djin Sganzerla

O novo filme de Djin Sganzerla, Elipse, está entre os  filmes mais populares da 49ª Mostra de São Paulo, de acordo com pesquisas realizadas com o público. Neste novo longa-metragem, a diretora é novamente protagonista de sua história, e aborda a questão do espelhamento de identidades na construção do feminino, mas com um diferencial mais definido, do ponto de vista da narrativa, do que em seu longa anterior, Mulher Oceano, que navega pelas águas do fantástico. Sua personagem Cléo é uma astrônoma de 43 anos, que subitamente  descobre um lado oculto do passado de seu pai, jpa morto – ela tem uma meia-irmã, Nalu (Lian Gaia), que é de ascendência indígena. Nalu decide procurar a irmã, que ignorava a sua existência. Cleo está grávida de seu marido, e se sente bastante afetada pelas questões que a irmã traz. A principal diz respeito à visão que ela tinha de seu pai. Como poderia não ter percebido que ele pudesse ser tão tóxico? É um choque.

As oportunidades profissionais das irmãs certamente não foram as mesmas, e um estranhamento inicial, uma desconfiança mútua paira no ar. Num primeiro encontro, a sensação que se tem é a de que a relação das duas vai terminar em algo trágico, mesmo porque a trajetória de Nalu passa por relações abusivas no trabalho, e com a sua própria família e seu pai. Entre as duas, no entanto, surge um vínculo mais profundo, uma afinidade, o conceito de sororidade permeia as relações, e elas prometem se reencontrar. Afinal, se a vida de Nalu nunca foi um conto de fadas, a de sua irmã Cleo, criada de forma mais protegida, tampouco é tão perfeita quanto parece. Logo após o encontro entre as duas, Cleo começa a perceber uma movimentação suspeita de mensagens no computador de seu marido Tony (Ségio Guizé).
Nada é como parece, e aos poucos vamos compreendendo que Nalu se encontra em uma situação de risco, por ter se rebelado contra um patrão corrupto, violento e que a explora. Cleo, por sua vez, começa a adentar o mundo da deep web, e se dá conta de que seu amado companheiro pode não ser a pessoa por quem ela se apaixonou. Eclipses, como se sabe, são processos de ocultamento de um corpo celeste por outro em um processo de transição. Estamos acostumados a visualizar essas passagens entre o Sol e a Lua.  Por momentos, não é possível identificar um ou outro astro, e com isso mergulhamos na escuridão.

O tema é poderoso, desperta empatia, e as duas irmãs demonstram uma afinidade em cena. Guizé, o Tony, lembra vagamente o personagem Gael, que o ator representou em O outro lado do paraíso. A nova camada que o ator acrescentou ao seu personagem aqui é a de um certo cinismo, alguém que se entrega a uma vida dupla, mantendo um comportamento simpático, sensível, o que dificulta a identificação do lado mais perverso de sua personalidade.

Djin Sganzerla iniciou sua carreira como atriz. Roteirizou, dirigiu e atuou em Mulher Oceano (2020), seu primeiro longa-metragem como diretora, filmado no Japão e no Rio de Janeiro. O filme recebeu 15 prêmios nacionais e internacionais, exibido em festivais na Europa, EUA e Ásia. Em 2021, foi indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pela Melhor Primeira Direção e ao Prêmio da Associação Brasileira de Autores Roteiristas – ABRA. Dirigiu e roteirizou o curta-metragem Antes do Amanhã ao lado de André Guerreiro Lopes (2022), que recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio de Melhor Fotografia, e que assina a direção de fotografia de Eclipse. É sócia da Mercúrio Produções, produtora fundada em 2001 com mais de 30 longas em seu currículo. Djin é filha dos cineastas Rogério Sganzerla e Helena Ignez. Eclipse é seu segundo longa-metragem, e neste trabalho ela se distancia das temáticas e da linguagem cinematográfica adotada pelos pais, e assume um trabalho cada vez mais autoral e sempre denso.

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