Bugônia: flertando com o fascismo

Bugônia (2025) é a última realização do diretor grego Yorgos Lanthimos e traz novamente a atriz Emma Stone como protagonista no papel da executiva Michelle Fuller. Com essa indicação, ela conquistou um recorde:  é a mulher mais jovem – tem 37 anos – a conseguir 7 indicações ao Oscar superando a veterana atriz Meryl Streep. Stone está muito bem no papel de uma suposta alienígena extremamente impiedosa que aparenta ser uma poderosa CEO em ascensão. Arrogante, invejada e odiada, ela atrai a ira de uma dupla de caipiras red neck, interpretados por Jesse Plemons (Teddy) e Aidan Delbis (Don). Totalmente fanáticos, religiosos, e conspiracionistas, eles acreditam que ela é uma alienígena perigosa, que o planeta de Fuller-Stone tem um plano de invadir a Terra, e que ela, que é uma das articuladoras desse ataque, tem de ser morta para impedir essa catástrofe. A mãe de Teddy, interpretada pela ex-patricinha Alicia Silverstone, foi extremamente prejudicada pela empresa da infeliz CEO, na qual Teddy trabalha.

O grande trunfo do filme é que até mais da metade do longa, é difícil aceitar que a teoria conspiratória dos dois neófitos seja verdadeira, tudo leva a crer que eles estão enganados e estão sendo estimulados por teorias extremamente reacionárias, ao sabor dos tempos de agora e do movimento MAGA Make America Great Again de Trump e sua turma. Esse é o trunfo do filme, mas também um dos seus problemas, pois o ritmo lento em que a trama se desenvolve acaba sendo cansativo por um lado, mas também extremamente perverso, como se o diretor estivesse se deliciando com as técnicas de tortura empregadas pela dupla caipira para extrair a verdade da pobre Fuller. No desfecho, vamos perceber que são vítimas e algozes. O que causa muita estranheza nesta parábola sci-fi distópica sobre extermínio e o mal-estar da civilização, é que infelizmente as reflexões nada têm a ver com a perspectiva freudiana. O mote é o conceito de que a única saída para a humanidade é o extermínio desta sociedade, portanto nada vai se salvar, talvez algumas plantas e animais. A ideia de que o homem é o lobo do homem pode parecer à primeira vista uma crítica social profunda, mas não é isso que se coloca na tela. O filme escancaradamente flerta com o fascismo, este mesmo que invade as ruas de Minneapolis.

Plasticamente o filme é uma obra de arte, prima por detalhes. O roteiro que demora a se desenvolver enquanto história dá munição para longas horas de agonia e tortura. Bugonia (2025) é um remake em língua inglesa do cult sul-coreano Salve o Planeta Verde! (Save the Green Planet!), de 2003, dirigido por Jang Joon-hwan. Esse ideário cético que desdenha a tecnologia como sinal de avanço da ciência e dos valores humanistas, que ambos os filmes abordam, está colocado desde a década de 1960, e pode ser encontrado em outros filmes e obras de ficção cientifica e especulativa, como Aniara (Harry Martinson, 1956) o poema sueco que inspirou peças de teatro e filmes. Essa versão contemporânea de Lathimos, embora oportuna, é complexa. Uma comédia rasa pode oferecer soluções simplistas e paródicas, mas Lanthimos demonstra mais ambições. O filme original de Joon-hwan é uma comédia escrachada, paródica, em que o protagonista Lee Byeong, apicultor como Teddy, sonha em ser um super-herói, um justiceiro, ao sequestrar um empresário da indústria farmacêutica para salvar o planeta, o que torna as teorias de conspiração insustentáveis, impossíveis de serem levadas a sério.

O tom de Lanthimos é outro, ele trabalha camadas dos personagens, dando a eles verossimilhança, tornando-os ainda mais perigosos, realistas, e nisso, o desempenho de Plemons, que passou desapercebido e foi esnobado nas indicações, é extraordinário. Seu personagem nunca é óbvio. A estratégia narrativa adotada por um diretor raramente é feita ao acaso. Sim, é bonito, bem-feito, mas serve a quem? Stone desconstrói novamente mitos de fragilidade feminina sem ser necessariamente feminista. Sua personagem é extremamente andrógina, e calculista, como convém a um ser que literalmente veio de outro mundo.
Lanthimos vem trabalhando com Emma Stone e Jesse Plemons já há algum tempo, numa parceria criativa como poucas. Com Pobres Criaturas, Stone levou seu Oscar pra casa. Desta vez, as chances são bem menores. No entanto, o desempenho carismático de Plemons acaba ofuscado nesta trama, em que seu personagem salva o filme de ser apenas um panfleto, conferindo a Teddy dignidade. Stone desempenha a contento seu personagem, que é bem mais limitado em possibilidades.

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