Um filme que conquista aos poucos, o nigeriano A sombra do meu pai, em cartaz na @mostrasp, fala de política e opressão a partir das subjetividades, dos afetos. A narrativa começa de uma forma que quase sugere uma sitcom ao estilo dramédia, muito peculiar de Nollywood, mas vai se afirmando a cada cena como um drama tocante e nuançado, explorando de forma até poética um momento de transformação importante desse país africano que já foi colônia britânica, e que possui uma poderosa indústria cinematográfica. A trama se desenvolve sob o ponto de vista do garoto que traz o mesmo nome de seu diretor e co-roteirista, Akinola Davis Jr. É de fato inspirada em fatos reais.
As personagens centrais são um pai, Folaremi, e seus dois filhos Remi (Olaremi) e Akin (Akinola), de 8 e 11 anos. Os garotos, que moram num vilarejo com a mãe, encontram o pai, que chega de viagem de trabalho. Os garotos se ressentem das sucessivas ausências do pai. Ele então decide levar os garotos com ele para conhecer a capital Lagos, e ir até a fábrica onde trabalha e que lhe deve alguns salários. No trajeto, vamos percebendo que o país se encontra numa crise brutal de falta de combustível, de alimentos, e também que o pai, que está sempre ausente, trabalhando, está totalmente alinhado ao grupo que clama por mudanças e ameaça o poder na Nigéria.
Retrato sensível e impactante desse importante momento histórico, mas também da cultura nigeriana e da relação familiar patriarcal em sua transição para a modernidade, o processo crescente de urbanização de um país com imensas disparidades sociais e econômicas. O diálogo entre Aki e seu pai Fola é expressivo dos conflitos advindos dessas mudanças: na tentativa de contestar um modelo de masculinidade com a qual não se identifica mais, o pai acaba em alguns momentos reproduzindo comportamentos ultrapassados e autoritários e é questionado pelos filhos. Por outro lado, os garotos se ressentem da maior presença do pai como espelho de conduta num mundo extremamente difícil. O olhar infantil de Aki, que é o narrador que vai aos poucos adentrando os novos espaços que estão colocados, nunca é ingênuo, mas é esperançoso, aposta no futuro. A mãe, que só aparece ao final, é o retrato da mulher nigeriana que foi para a faculdade, que tem uma profissão, que não é mais somente uma dona de casa.
A sombra do meu pai, longa de estreia de Akinola David Jr, premiado por um curta-metragem Lizard, é uma coprodução Reino Unido-Nigéria. Sua ação se desloca do interior para a capital daquele país africano, Lagos (que teve colonização portuguesa) e constrói um painel do cotidiano do país naquele momento histórico marcante.
A ação do filme transcorre no dia 17 de novembro de 1993 – à exceção do desfecho, que entra nos créditos finais -, quando as Forças Armadas , lideradas pelo Ministro da Defesa General Sani Abacha , forçaram o Chefe do Presidente Interino Ernest Shonekan a renunciar, em função da possível vitória nas urnas de MKO Abiola. Embora o golpe seja descrito pela IA do Google como “sem derramamento de sangue”, o que vamos ver na tela desmente o relato oficial. Não se trata de obra destinada a chocar pelas cenas de sangue. Elas são introduzidas de forma hábil pelo diretor, e pontuam todo o filme, não deixando nenhuma dúvida sobre o aspecto violento desse tipo de intervenção. Em nome da democracia, eleições são anuladas, pessoas inocentes são presas e mortas sem o menor pudor.
O filme está na competição Novos Diretores e integra a mostra de 25 filmes do Reino Unido que integram a mostra, como parte das celebrações do Ano Cultural Brasil/Reino Unido que também deve estar presente no nosso Encontro de Ideias Audiovisuais, com várias ações, e com as missões conjuntas na Mostra e no Festival de Londres. Confira os horários de exibição em https://mostra.org/filmes/a-sombra-do-meu-pai

