Uma das estreias mais aguardadas do ano, comédia noir A Noiva! (The Bride), de Maggie Gyllenhaal, retoma um diálogo com a obra A Noiva de Frankenstein (1935), uma sequela do famoso filme Frankenstein (1933), com Boris Karloff, dirigidos por James Whale e baseados na icônica obra de Mary Shelley. A personagem nunca existiu no romance, e no filme, praticamente não tinha fala, fato enfatizado pela diretora em entrevistas. Em cena, Ida Bolinski, interpretada por Jessie Buckley, estupenda, devora a tela em pura histeria, ao sabor dos conceitos freudianos tão bem descritos pela poeta Ana Cristina – angústia é fala entupida. Frankenstein, interpretado por Christian Bale, mantém a aura inocente do monstro, mas evita o confronto com o mito e o transforma num romântico incurável em busca do amor perfeito e eterno. A cientista aqui é a Dr. Euphronious, em interpretação correta de Annette Bening, e Penelope Cruz é Myrna Mallow, que graças ao casal monstruoso, vai ascender na carreira de detetive, feito considerável para a época. A grande ousadia do filme, que retoma a época dos gângsteres e da lei seca para narrar a saga do casal, é dar vida a um projeto inanimado de mulher e atualizar o mito, ao retomar as referências cinematográficas.
Os diálogos entre Mary Woolstonecraft Shelley e o cérebro de Ida-Jessie são uma pequena obra-prima. Mary era filha da ativista e educadora Mary Woolstonecraft, transformada em símbolo do feminismo pelas sufragistas, e casada com o poeta e escritor Percy Shelley. Esse recurso também está no filme original, mas não com essa densidade. O filme é feminista, com certeza, e reflete a dor e a delícia de ser mulher na década de 1930 mas também hoje, e aborda temas tão delicados como feminicídio. Tem a coragem de não passar pano para a ausência de mulheres em gângsters films, como eram chamadas essas obra, e nem pra violência de gênero. Bonnie and Clyde (1967|), de Arthur Penn, com Warren Beatty e Faye Dunaway, que é citado na divulgação como uma referência para a história, é também um remake de um clássico noir, Mortalmente Perigosa (Gun Crazy ou Deadly is the female, 1950, EUA), em que a mulher é a referência, o motor da história. O detetive ao estilo Humphey Bogart também está neste filme repleto de referências cult. O papel de macho subserviente ao sistema é do marido de Maggie, Peter Saasgard, como detetive Jake Wiles. E o irmão de Maggie, Jake Gyllenhaal, é a outra referência de masculinidade, no papel do astro Ronny Reed, um arremedo de Fred Astaire com todas as características afeminadas do astro que encantava plateias femininas justamente por representar uma opção menos envernizada de galã.


O conceito de feminino-monstruoso, cunhado por Barbara Creed, está de volta, num filme que é ao mesmo tempo crítico mas pretende interagir com a audiência. A noiva! é a expressão mais acabada e indigesta do que a ensaísta australiana chamou de monstro social, pois Bolinski-Jessie não tem limites, não consegue se encaixar, é abjeta e repugnante para a sociedade na qual busca um lugar ao sol. Ela quer justiça e tem consciência do preço a ser pago por isso. O filme representa uma tentativa de dar essa voz a uma personagem que atravessou décadas, e humaniza o monstruoso. Por isso, talvez, insista numa certa inocência dessa personagem que não lhe cai bem. Como heroína trágica, ela tem direito à redenção. E nisso se afasta de outras referências já exploradas em filmes e séries semelhantes, e do clima obscuro de Donnie Darko, que deu aos irmãos