A próxima aventura da A24 é como um retorno às origens, após a ressaca brutal do Oscar: A Morte de um Unicórnio (2025), dirigida por Alex Scharfman, lançado no dia 28 nos Estados Unidos, é um filme estranho, com horror slasher, mas cheio de esperança num mundo melhor. O longa, estrelado por Jenna Ortega e Paul Rudd, que interpretam filha adolescente e pai ausente, é uma fábula contemporânea desconcertante sobre os rumos de nossa sociedade, e, sobretudo, da sociedade capitalista estadunidense, que tem como pano de fundo a reconciliação familiar. Ou seria exatamente o contrário? A verdade é que somos induzidos a torcer pela selvageria e pela destruição desse mundo corrompido e tragado pela ganância, literalmente, pedaço por pedaço.

A história começa com um fim de semana atípico entre pai e filha. Elliot (Rudd), um consultor, decide levar a filha problema Ridley (Ortega), para uma visita profissional a um cliente que fica numa reserva ambiental idealizada para ser um santuário para espécies em extinção. A caminho deste local idílico, o pai atropela um animal que, a princípio, ele supõe ser um pônei. Só Ortega percebe que se trata de um unicórnio bebê. O sangue roxo do animalzinho, com o qual ela se identifica à primeira vista, é milaculoso, como reza a lenda em torno dos unicórnios, seres selvagens, livres e mágicos.

Ao chegarem finalmente à residência de Odell Leopold (o britânico Richard E. Grant, do inesquecível Como fazer carreira em publicidade), Elliot acaba tendo de revelar o trágico incidente. Para sua surpresa, ele não vai ser punido. A família, composta pelo filho playboy Wil Poulter, e pela mãe perua Belinda Leopold, interpretada por Tea Leoni, está mais interessada em comercializar a descoberta, e tirar proveito de absolutamente tudo. Odell está morrendo de metástase, e, igualmente, quer saber como pode se beneficiar do episódio. A preservação da natureaza é a menor de suas preocupações.

Esqueçam os unicórnios de pelúcia que a indústria oferece a cada nova vitrine, como sinal da vitória da civilização sobre a selvageria. A vingança não tarda a chegar. Unicórnios furiosos irrompem pela propriedade buscando uma satisfação, e destruindo tudo o que encontram. E o que eles, exatamente, encontram, além de morte e e dissimulação? Nada. Nesta comédia sombria, não resta quase ninguém. O santuário parece mais um bunker de mafiosos, com seus empregados soturnos e misteriosos, extremamente violentos.

A família que habita a propriedade rapidamente se dissolve e disputa espaços de conciliação e sobrevivência quando se sente ameçada. Cada um, a sua maneira, tenta desesperadamente manter seus privilégios, custe o que custar. Os empregados não são melhores que os patrões. Os cientistas que conduzem uma pesquisa no local são ainda mais deconcertantes. Cínicos, corruptos, sem nenhuma sombra de empatia com a humanidade e muito menos com os animais.
Diante dessa realidade indigesta, o que nos resta? E aí, quando tudo parece perdido, a utopia é posta em cena. O unicórnio, na cultura medieval, simbolizava a pureza, e era frequentemente associado à Virgem Maria. Trata-se de um ser mítico, selvagem, e associado à pré-história da humanidade. Essa imagem é poderosa, e garante o espetáculo. Difícil é decidir de qual lado ficar.
