A figura paterna em Valor sentimental: quase Bergman?

O filme Valor Sentimental, de Joachim Triers, é um forte concorrente do nosso candidato brasileiro ao Oscar de Melhor filme estrangeiro. O ator sueco Stellan Skarsgård, que estrela o filme, e Wagner Moura, têm participado constantemente de rodas de conversa sobre os tipos étnicos e seus papeis em Hollywood. Skarrsgárd, versátil, já fez de tudo, até mesmo musicais como Mamma Mia! Here We Go Again (2018), em que faz o namorado de uma das amigas de Donna Sheridan (Meryl Streep), o que faz todo sentido, afinal o musical foi inspirado na música do grupo ABBA, um patrimônio da Suécia, ao lado do noir nórdico, gênero literário de romance policial que popularizou nomes como Stieg Larsson e Henning Mankell. No início da carreira, relembra, sempre acabava no pepal do vilão, por vezes russo, por conta do sotaque, hoje bastante atenuado. Pois bem, em Valor Sentimental ele é o pai, o contraditório e rígido cineasta Gustv Borg, nessa história dirigida por um norueguês, Joachim Trier, mas que evoca sobremaneira os filmes de outro sueco, Bergman.
A referência ao famoso diretor sueco não se limita às paisagens escandinavas, ou às referências culturais. A dificuldade que o personagem masculino tem em suas relações afetivas e familiares, em especial com a filha mais velha, que é atriz,  Nora (Renate Reinsve) é na verdade o motor da trama. Borg se prepara para realizar um novo filme, após 15 anos sem entrar num set, e considera ser este o seu último trabalho, quase um testamento, e quer a filha atriz como protagonista.
Nora tem seus traumas com o pai, uma relação bastante mal resolvida, e cheia de conflitos. Gustav Borg praticamente abandonou ela e sua irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), após a morte da mãe. Ela vive agora na velha casa da família, cheia de recordações trágicas, como por exemplo o fato de que sua avó, mãe de Gustav Borg, se suicidou naquela casa. E ele quer fazer ali justamente o seu filme, mas ela recusa o papel. Inconformado, ele vai buscar outra atriz, que surge na figura de Rachel Kamp (Elle Fanning), o que acaba propiciando um embate sobre o fazer cinema em Hollywood, em inglês, por exemplo.
Esse é basicamente o ponto de partida do filme, mas não é a história, e nisso ele se aproxima bastante do velho Ingmar, apesar de estilo próprio e bem definido. A filha Nora tem crises de pânico, muitas vezes não consegue entrar em cena, e dedicou sua carreira ao teatro, longe do cinema e da sombra do pai. Seu trabalho é reconhecido, Mas ambos, na verdade, buscam outro tipo de reconhecimento, aquele do afeto, do compartilhamento de memórias, de vida, que para eles está relacionado sempre com a arte. Ambos possuem uma dificuldade intensa de estreitar vínculos afetivos.
O filme é bastante sensível e essa mergulho nos conflitos familiares e na memória da infância permite ao diretor se apropriar com mais intensidade de uma narrativa que sai da comédia mais leve de A pior pessoa do mundo para explorar a dor de não se sentir amado, o ressentimento, a angústia de viver sem ser capaz de expressar sua emoção e o seu amor diante do outro. A outra filha, Agnes, aparece como mediadora da relação, e ao mesmo tempo como uma pessoa mais sensível e madura. Até mesmo a jovem atriz em ascensão, Rachel, consegue expressar melhor suas angústias e emoções do que o pétreo e desajeitado Gustav Borg. O filme ganhou o Prêmio do Júri em Cannes em 2025.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *