Distante do estereótipo da bruxa que tem um coven, um caldeirão com poções e vassouras mágicas, a bruxa de A Hora do Mal aterroiza pelo seu controle excepcional da mente e da maldade humana. Na aparência ela é uma simpática senhora, a tia Gladys (Amy Madigan, que ganhou o Critics Choice Award pelo papel), que chega para visitar a sobrinha, e ficar por um tempo, apenas uma senhora precisando de amparo nos útlimos anos de vida. Ela está doente. Excêntrica, com roupas da década de 1950 e óculos retrô, ela parece totalmente inofensiva. No entanto, a perigosa senhora é uma parasita de mentes, e veio para ficar.
O diretor Zach Cregger (Noites Brutais), revelou que uma das cenas mais impactantes do filme, quando as crianças desaparecem misteriosamente e saem correndo pelas ruas foi inspirada na fotografia “Garota Napalm” de Nick Ut, que capturou uma tragédia da Guerra do Vietnã em 1972. A imagem, que mostra uma criança vietnamita queimada correndo após um ataque aéreo. Em resumo, A Hora do Mal é um filme de terror clássico, mas que opera com o registro do terror psicológico, sem grandes efeitos especiais, totalmente centrada no trabalho dos atores. Cada cena é meticulosamente trabalhada. Somos introduzidos à história logo nas primeiras cenas, quando uma reunião escolar numa pequena cidade discute o desaparecimento de 17 crianças de uma sala de aula que estava sob responsabilidade da professora Gandy (Julia Garner), uma moça com passado conturbado. A câmera oculta o seu rosto por algum tempo, criando uma tensão. Os pais enfurecidos querem se vingar da professora, que é considerada culpada por toda a situação.
Desesperada, ela começa a investigar por conta própria, e começa pelo óbvio – somente uma criança não desapareceu, Alex (Cary Chistopher), o sobrinho da tia Gladys. Gandy vai até a casa de Alex, e se depara com uma casa escura, aparentemente vazia e fechada, e vislumbra o casal Lilly aparentemente inerte, como se tivessem se convertido em mortos vivos. Aos poucos ela ganha a confiança de outro pai de a
luno, Archer Graff (Josh Brolin).
A bruxa demora a se tornar visível em cena e na trama, mas ao chegar, de mansinho, inunda a tela e a nossa imaginação. Um trabalho de atriz experiente e denso. A professora álcoolatra de vida sexual irregular não é o monstro, embora essa fosse a solução mais fácil para todos. E Gladys tem uma característica importante, ela trabalha com os conflitos de suas vítimas. Quase uma terapeuta. Seria um azarão no páreo se ganhasse o Oscar, mas com certeza seria merecido. O tífulo original é muito mais instigante, Weapons (Armas). Tia Gladys seria capaz de montar um exército, uma seita? Talvez, já foi anunciada uma sequência.
O aspecto rejuvenescido da tia Gladys depende dos seus súcubos. Ela se alimenta deles. Quase um ícone de uma época, no entanto, ela desarma porque sua aparência estranha provoca pena à primeira vista.
As referências visuais da tia Gladys remetem aos trabalhos da fotógrafa Diane Arbus, por exemplo, que ficou conhecida pelas suas fotografias quadradas em preto-e-branco de pessoas comuns e marginalizadas em suas vidas cotidianas. Difícil não se compadecer de uma senhorinha que tem graves problemas de saúde e que está morrendo. Mais interessante ainda é ver uma atriz que se notabilizou por papeis em dramas familiares assumir essa função.

