programação
03 a 06 de novembro
em Salvador
XXIX Encontro SOCINE
05 de novembro
na Faculdade de Comunicação (UFBA – campus Ondina).
19Hr Evento de Lançamento
em Salvador
XXIX Encontro SOCINE
na Faculdade de Comunicação (UFBA – campus Ondina).
19Hr Evento de Lançamento
O livro tem prefácio de Roberta Veiga, professora, pesquisadora de cinema, coordenadora do grupo de pesquisa Poéticas Femininas, Políticas Feministas (UFMG) e tradução de Luiza Lusvarghi, jornalista, crítica de cinema e pesquisadora da Unicamp. Barbara Creed é ensaísta e professora na Universidade de Melbourne, na Austrália.
A volta do Feminino Monstruoso: a Nova Onda feminista do cinema é uma tradução da mais recente obra de Barbara Creed, lançada em 2022, que retoma conceitos do texto clássico The Monstrous-Feminine: film, feminism , psychoanalysis (1993), um ensaio que analisava personagens femininas de filmes clássicos de horror como exemplos da misoginia patriarcal. As produções contemporâneas de gênero feitas por diretoras e alguns diretores, no entanto, reconfiguram o feminino monstruoso, conceito cunhado por Creed a partir da obra de Julia Kristeva, e exploram questões de justiça social, como a igualdade das mulheres, a violência de gênero, as relações queer, questões raciais e a situação caótica do planeta diante da possibilidade de extinção de sua biodiversidade.
Estas produções compõem um movimento denominado por Creed como a Nova Onda feminista do cinema, que referendam os antigos estereótipos como figuras em revolta percorrendo uma longa jornada pela noite escura da abjeção. Creed analisa uma série de filmes como O Babadook (2014), Garota sombria caminha pela noite (2014), Nomadland (2020), Carol (2015), Raw (2015), Vingança (2017), Bela Vingança (2020), Sob a pele (2013) e O conto da Aia, filme (1990) e série de televisão (Hulu, 2017-2025).
LL– O que a levou a escrever esse ensaio após a publicação de *O Feminino Monstruoso* na década de 1990? Houve algum filme em particular?
BC – Percebi que a imagem do feminino monstruoso havia mudado drasticamente desde que escrevi o livro em 1993 –– há mais de 33 anos. No livro original, a imagem dela era uma expressão da misoginia patriarcal. Ela era a mãe sufocante, o monstro menstrual, a vadia castradora e assim por diante. Assim como muitos monstros, ela era retratada como uma figura aterrorizante, poderosa e, muitas vezes, simpática, mas, no final, era morta e a ordem simbólica patriarcal restabelecida. Nos filmes de terror do novo século, dirigidos por mulheres — e alguns homens —, ela é bem diferente.
Sua imagem revela o que a misoginia reprime e o que os espectadores celebram. No meu livro, chamei isso de “nova onda feminista”. Ela ainda é uma figura aterrorizante, como a vampira de Garota sombria caminha pela noite (A Girl Walks Home Alone at Night), que assassina estupradores e outros homens violentos; a mulher mais velha vingativa de Rastros (Spoor), que mata caçadores brutais de animais; e a heroína de O Rouxinol (The Nightingale), que faz justiça contra o oficial sádico do exército que aterroriza mulheres e os povos aborígenes da incipiente colônia da Tasmânia. O “feminino monstruoso” está agora em uma jornada pessoal na qual se revolta contra a violência masculina, o estuprador, a comunidade suburbana censora, a homofobia, o racismo, a crueldade contra os animais, o capitalismo explorador e assim por diante. Ela nem sempre sobrevive, mas é corajosa, engenhosa e usa todos os seus poderes aterrorizantes para enfrentar a ordem simbólica patriarcal – e geralmente vence! Em alguns filmes, ela está em uma jornada mais íntima de autodescoberta pessoal, na qual questiona a ordem simbólica falocêntrica que lhe negou voz e a capacidade de tomar decisões pessoais sobre sua sexualidade. Esses filmes exploram o horror do cotidiano, como em Carol, A Esposa e A Assistente. Esse tipo de horror é tão traumático para a protagonista feminina quanto as formas mais dramáticas de horror corporal, o sobrenatural e o horror gótico.
LL– Atwood escreveu O Conto da Aia na mesma década em que você publicou sua obra clássica em 1993, e o livro foi adaptado para o cinema. No entanto, foi a série mais recente que o tornou viral? O que mudou?
BB – Ótima pergunta. Acho que o século XXI testemunhou uma nova onda de movimentos radicais. Entre eles estão um movimento recém-inspirado do feminismo de quarta onda da década de 2010, o movimento #MeToo; o movimento político LGBTIQ+, o Black Lives Matter, a política ambiental, os movimentos descoloniais, bem como novas políticas em torno do envelhecimento, da falta de moradia e dos grupos de protesto de pessoas com deficiência. O conto da Aia tornou-se parte dessa nova onda de política feminista radical, principalmente porque foi lançada em 2017, o ano em que Donald Trump assumiu a presidência. É fascinante ver que, quando governos conservadores, como o governo Trump nos Estados Unidos, atacam o direito das mulheres de controlar seus corpos, as manifestantes se vestem como servas, com mantos vermelhos e toucas brancas, e se juntam às manifestações. Isso também ocorreu em outros países onde há um ataque aos direitos das mulheres, como na Argentina, no Reino Unido, na Irlanda, na Polônia, na Costa Rica e em Israel. A fantasia de serva tornou-se um símbolo de resistência globalmente, e a história foi vista por muitos como um alerta. Esses movimentos se tornaram globais e continuam sendo uma força poderosa em muitos países. Além disso, o streaming global permitiu que O conto da Aia alcançasse milhões de espectadores ao mesmo tempo. Isso levou a uma enxurrada de discussões sobre a série na internet. As pessoas estão se manifestando contra a injustiça, a pobreza, a misoginia, a homofobia e assim por diante. Agora estamos vendo uma reação conservadora.
LL – O cinema das diretoras feministas brasileiras nas últimas duas décadas produziu filmes de terror e fantasia, gêneros que não são tradicionais em nosso país. Você já assistiu a algum deles? Embora nossa literatura e nosso cinema sejam repletos de fantasia e do sobrenatural — o que faz parte da nossa cultura —, essas produções são recentes. Você mencionou uma diretora brasileira em seu ensaio, Natalia Leite; ela dirigiu cinco episódios de O conto da Aia, mas trabalha nos Estados Unidos.
BC – Gostaria de poder assistir a alguns desses filmes. Tentei encontrar *M.F.A.*, o thriller feminista de vingança por estupro dirigido por Leite, mas ele não está disponível nos serviços de streaming na Austrália. A direção de Natalia Leite em O conto da Aia foi excelente; ela é descrita como assertiva e possuidora de grande inteligência emocional. Fiquei emocionada ao ver que mulheres estavam dirigindo muitos dos episódios da série (que foi criação de Bruce Miller com produção da atriz Elizabeth Moss). Fiquei fascinada ao ver que diretoras estavam escolhendo o terror, a fantasia, os contos populares e de fadas para contar suas histórias e expressar suas críticas à sociedade. Incluí entrevistas na mídia em A volta do feminino monstruoso com muitas dessas mulheres, que falaram sobre o fato de que o gênero de terror — que elas misturavam com outras formas genéricas, como ficção científica, filme noir e road movie — era um veículo perfeito para sua raiva/indignação. Acho que esses gêneros têm uma longa história, certamente possuem uma tradição oral e falam às mulheres. Essas formas genéricas diferem do grande épico e da jornada do herói dos gêneros masculinos. As diretoras (e alguns homens) preferem o estilo mais íntimo e pessoal do terror, da fantasia e dos contos folclóricos. Outro gênero ao qual as diretoras recorrem é o mito clássico, principalmente para argumentar que a jornada da heroína tem uma longa história. Woman at War remete ao conto de Ártemis, A substância à Medusa, Furiosa da franquia Mad Max lidera as Vuvalini ( ou Muitas Mães), O Rouxinol (The Nightingale) ao mito de Filomela da Metamorfose de Ovídio, e Titane aos titãs. Abordei essa característica fascinante da nova onda do terror feminino no livro. Curiosamente, essa mistura de gêneros cinematográficos, de fantasia e folclóricos é uma tendência global entre as diretoras. Acho que o terror intergênero e o folclore, como várias diretoras afirmaram, permitem que elas explorem o horror que vem de dentro.
LL– Coralie Fargeat e Julia Ducornau são figuras de destaque nessa nova onda que exerce fascínio sobre as gerações mais jovens, mas A substância foi altamente polêmico e dividiu opiniões. O que você acha?
BC – Eu adoro A substância. Acho que é um filme fortemente feminista e que o Monstro ElisaSue é um exemplo magnífico da nova feminilidade monstruosa. Vejo suas ações como uma forma de resistência ao simbolismo patriarcal e à sua insistência inquietante de que as mulheres devem permanecer jovens, bonitas e em seu lugar. No início, Elisabeth passa a se autovigiar; ela vê seu corpo envelhecido através de olhos misóginos. Na sequência final, acho que ela percebe como foi enganada e decide exercer uma vingança corporal sobre o público. Ela usa seu corpo como uma arma de resistência feminista radical. Ela não está mais de luto pela juventude perdida; está com raiva e em revolta.
Ela vive uma jornada rumo ao que chamo de “a noite escura da abjeção” ou “abjeção radical”. Ela aponta para a possibilidade de uma nova ordem simbólica feminista com limites diferentes — que endossam a instabilidade, a fluidez, a hibrididade e uma ética do cuidado. Acho que a cena sangrenta final, que se inspira no banho de sangue de Carrie, na verdade transforma o corpo feminino grotesco em uma arma contra os espectadores na plateia. Acho que a cena final, na qual o close-up do rosto de Elisabeth se transforma no da Medusa, ao ser banhado pela água de um limpador de rua, nos convida a lembrar que a Medusa, com seu olhar petrificante e cabelos de cobras contorcidas, é uma figura antiga da fúria feminina e que ela não desapareceu. Ela deixou uma memória duradoura.
A própria Medusa já foi bela; ela foi estuprada por Poseidon dentro do templo sagrado de Atena, sua esposa, que a transformou então em uma mulher monstruosa e vingativa, capaz de transformar homens em pedra. A monstruosa ElisaSue, assim como a Medusa, também é uma mulher bela que é simbolicamente “estuprada” por sua própria cultura e transformada no feminino monstruoso — mas ela também se vinga. Discordo das interpretações tradicionais que veem o ato de Atena como uma punição à Medusa. Acho que Atena transformou Medusa em uma matadora de homens com um olhar petrificante para se vingar dos homens. Por que mais Coralie Fargeat terminaria seu filme com essa imagem? Sim, acho que A substância é um filme importante e poderoso, que infelizmente não tenho tempo para discutir mais a fundo aqui.
LL – Você acredita que essa nova onda transcende as diferenças culturais e étnicas? Como aconteceu, até certo ponto, com a Nouvelle Vague?
BC – Sim, acredito. Acho que essa Nova Onda Feminista, na qual o feminino monstruoso retorna como uma vingadora, uma protagonista feminina que fala com sua própria voz e, muitas vezes, defende o “outro”, é um fenômeno global. Muitos dos filmes criticam a violência masculina e o estupro, além de apoiarem outras pessoas que sofrem com o isolamento e a estigmatização: mães solteiras, os pobres, pessoas de cor, comunidades queer, a natureza e o não humano. Os filmes aos quais me refiro no livro vêm de diversos países: Estados Unidos, Austrália, Argentina, França, a diáspora iraniana nos EUA, Polônia, Noruega e Islândia. E nos novos capítulos da segunda edição de A volta do feminino monstruoso (2024), faço referência a filmes do Reino Unido, Canadá, Áustria, Senegal, Suécia e Alemanha. Essa nova seção examina filmes sobre o feminino monstruoso como não humano.
Recentemente, assisti a um filme malaio impactante, Tiger Stripes (2023), dirigido por Amanda Nell Eu (exibido na 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo). A figura feminina monstruosa é uma jovem que começa a menstruar cedo, antes de suas colegas, e, ao mesmo tempo, se transforma em uma mulher-tigre. Nell Eu usa o mito malaio da mulher-tigre como metáfora para a puberdade. Tiger Stripes trata da rebelião de uma jovem contra uma cultura religiosa rígida e conservadora que estigmatiza a menstruação. Isso me lembrou muito Carrie, de 1976. Quase cinquenta anos depois, muito pouco mudou! Tiger Stripes ganhou o Grande Prêmio na Semana Internacional da Crítica do Festival de Cannes de 2023. De fato, muitos dos filmes da Nova Onda Feminista conquistaram prêmios internacionais de prestígio. Os filmes da Nova Onda Feminista, que exploram questões importantes para as mulheres, definitivamente transcendem as diferenças culturais e étnicas, ao mesmo tempo em que se valem dessas diferenças para contar suas histórias.